quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Catecismo Ilustrado - Parte 22 - O Batismo



Catecismo Ilustrado - Parte 22


Os Sacramentos em geral – O Batismo


1. O sacramento é um sinal visível da Graça invisível, instituído para nossa santificação.

2. Chama-se ao sacramento sinal visível de Graça, porque não só confere a Graça, mas também a significa ou representa por meio de coisas sensíveis.

3. Nosso Senhor Jesus Cristo instituiu os sacramentos deixando neles a virtude dos seus merecimentos. E instituiu-os a fim de nos comunicar as graças necessárias para a nossa santificação.

4. Os sacramentos são sete, a saber: Batismo, Confirmação, Eucaristia, Penitência, Extrema-Unção, Ordem e Matrimônio.

5. Sabemos que há sete sacramentos e que não são nem mais nem menos pela doutrina constante e pela Tradição da Igreja.

6. Para um sacramento requerem-se três coisas: matéria, forma e intenção do ministro. A matéria é aquela coisa que se emprega para fazer o sacramento, como a água no Batismo. A forma são as palavras que se proferem quando se administra o sacramento. A intenção do ministro é a vontade de fazer o que faz a Igreja.

7. Há duas espécies de sacramentos, os sacramentos de vivos e os sacramentos de mortos.

8. Sacramentos de vivos são: Confirmação, Eucaristia, Extrema-Unção, Ordem e Matrimônio. Chama-se assim, porque para os receber de modo digno e proveitoso, é necessário que a alma viva da vida da Graça.

9. São dois os sacramentos dos mortos: Batismo e Penitência. Chama-se assim, porque foram instituídos para aqueles que estão mortos para a Graça de Deus.

10. Há três sacramentos que não se podem receber senão só uma vez, o Batismo, a Confirmação e a Ordem, porque imprimem na nossa alma um caráter indelével, isto é, que nunca se apaga.

11. Os sacramentos de necessidade são os cinco primeiros, sendo os dois últimos de livre escolha.

12. Os efeitos dos sacramentos são dois: o primeiro e o principal é, pelos sacramentos de mortos, de conferir a Graça santificante e, pelos sacramentos de vivos, de aumentar a Graça santificante; o segundo é o caráter que imprimem alguns deles. Além da Graça santificante, os sacramentos conferem a Graça sacramental. A Graça sacramental, tanto quanto não seja distinta da Graça santificante, acrescenta um certo auxílio divino para conseguir o fim do sacramento.

13. Todos aqueles que recebem os sacramentos recebem o caráter; porém a Graça recebem-na só aqueles que se acham dispostos.

14. O ministro ordinário dos sacramentos é: o Papa em todo orbe católico, o Bispo na própria diocese e o Pároco na sua paróquia.

O Batismo

15. O Batismo é o primeiro e o mais necessário de todos os sacramentos, no qual, pela ablução exterior e a invocação da Santíssima Trindade, o homem é purificado de todos os seus pecados.

16. O Batismo produz os seguintes efeitos: 1º às crianças lava-as da culpa original, e aos adultos perdoa-lhes também os pecados atuais que tiverem cometido até então e a pena que lhes é devida; 2º faz-nos filhos de Deus por adoção; 3º faz-nos membros da Igreja; 4º dá-nos direito à herança celestial.

17. A matéria deste sacramento é a água simples e natural. O sangue, o leite, a cerveja, o sumo são matérias inválidas. O café, o chá são matérias duvidosas.

18. A forma são as palavras seguintes “Eu te batizo em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo”, que devem ser pronunciadas pela pessoa que batiza.
19. Para batizar, deve lançar-se a água sobre a cabeça da criança, dizendo ao mesmo tempo as palavras da forma e tendo intenção de fazer o que faz a Igreja.

20. O ministro ordinário do Batismo é o Bispo, o pároco ou um sacerdote com delegação sua.

21. Em caso de necessidade todo o homem ou mulher pode batizar, mas sem as cerimônias da Igreja. A criança assim batizada deve depois ser levada à Igreja para receber os santos óleos e as cerimônias, e para se lhe fazer o assento no registro paroquial.

Explicação da gravura


22. A gravura representa na parte superior o Batismo de Nosso Senhor, e na parte inferior o Batismo duma criança.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Deus Ameaça Castigar-nos para Livrar-nos do Castigo



Deus Ameaça Castigar-nos para Livrar-nos do Castigo 
Por Santo Afonso Maria de Ligório

« Ah! Eu tirarei satisfação dos meus adversários,
e me vingarei dos meus inimigos » (Is I,24)

Eis o que Deus diz quando fala de castigos e de vinganças: diz que Ele é obrigado pela sua justiça a vingar-se de seus inimigos.Mas notem a palavra Ah!.Esta palavra é uma espressão de dor, com a qual quer se dar a entender que, se Deus fosse capaz de chorar antes de castigar, Ele choraria amargamente por se ver obrigado a nos afligir, a nós, suas criaturas, que Ele amou tanto que até deu a vida por amor de nós."Ah!", diz Cornélio a Lapide, "é uma expressão de dor, não de insulto: Exprime a dor e o desejo de evitar o ter que punir os pecadores".

Não, esse Deus que é Pai de Misericórdias, e que tanto nos ama, não tem ânimo de nos punir e de nois afligir, mas de nos perduar e de consolar: "bem conheço os desígnios que mantenho para convosco - oráculo do Senhor -, desígnios de prosperidade e não de calamidade" 1.

Mas, alguém dirá, posto que isso é assim, porque então Deus castiga?Ou, pelo menos, porque demonstra querer nos castigar?Porque?Porque Ele quer usar de misericórdia; a ira que demonstra é toda feita de paciência e de misericórdia.Compreendamos portanto, queridos ouvintes, que o Senhor no momento se faz ver irado, não para nos castigar, mas para que abandonemos o pecado e assim Ele possa nos perdoar.Esse é o tema de nosso Sermão: Deus ameaça castigar-nos para livrar-nos do castigo.

As ameaças dos homens são ordinariamente o efeito de sua soberba e de sua impotência.Quando podem vingar-se não abenaça para não dar aos inimigos ocasião de escaparem de sua vingança.Somente quando lhes falta o poder para vingar-se, então que se servem das ameaças para, pelo menos desta maneira, contentar a sua ira e atormentando seus inimigos com temor.

Não são deste naipe as ameaças de Deus.Elas são completamente de outra natureza.Ele não ameaça por impotência de nos castigar, porque Ele poderia vingar-se no momento que quisesse.Ele é paciênte conosco para ver nos penitêntes e livres do castigo: "e para que se arrependam, fechais os olhos aos pecados dos homens" 2.Nem nos ameaça por ódio, para nos atormentar com o temor.Deus ameaça por amor, afim de nos convertermos e assim evitarmos o castigo.Ameaça porque não quer ver-nos perdidos.Ameaça, enfim, porque ama nossas almas: "Mas poupais todos os seres, porque todos são vossos, ó Senhor, que amais a vida" 3.

Ameaça, mas, entretanto, é paciênte e atrasa o castigo, porque não nos quer ver condenados, mas emendados: "Usa da paciência para convosco.Não quer que alguém pereça; ao contrário quer que todos se arrependam" 4.De maneira que as ameças de Deus são ternuras e apelos amorosos de sua bondade, com os quais quer salvar-nos das penas que merecemos.

O Profeta Jonas grita: "Daqui a quarenta dias, Nínive será destruída" 5.Pobres Ninivitas, diz, já chegou o tempo de vosso castigo.Eu o anuncio da parte de Deus: Sabei que dentro de quarenta dias Nínive será arrastada e desaparecerá do mundo.Mas como é que depois Nínive fez penitência e não foi castigada? "Deus arrependeu-se do mal que resolvera fazer-lhes" 6.Pelo que Jonas afligiu-se e, lamentando-se com o Senhor disse-lhe: "É por isso que eu tentei esquivar-me fugindo para Tarsis, pois sabia que sois um Deus clemente e misericordioso, de coração grande, de muita benignidade e compaixão pelos nossos males" 7.

Por isso ele fugiu de Nínive, foi para o campo e deixou-se sob uma cabana coberta de hera para proteger-se dos raios abrasadores do sol.O que fêz porém o Senhor?Fêz que a hera secasse.Jonas de novo afligiu-se tanto que desejava a morte.Então Deus lhe disse: "tiveste compaixão de um arbusto pelo qual nada fizeste, que não fizeste crescer...e não hei de ter compaixão da grande cidade de Nínive?" 8.Tu te lamentas pela hera perdida, que não fizeste crescer, e não queres depois que Eu perdoe os homens que criei com minhas mãos?

A ruína que o Senhor fêz anunciar a Nínive explica São Basílio, não foi uma profecia, mas apenas uma ameça, mediante a qual queria ver aquela cidade convertida.O mesmo santo diz que Deus por vezes se mostra irado porque quer usar de Sua misericórdia e nos ameaça, não para nos castigar, mas para salvar-nos do castigo.E agrega Santo Agostinho que quando alguém nos diz "atenção" é sinal que não nos quer fazer dano.

Exatamente do mesmo modo faz Deus conosco.Nos ameça com o castigo diz São Jerônimo, não para o aplicar a nós, mas para nos livrar dele se nós, por causa de Seu aviso, nos emendamos.Vós, Senhor meu, diz São Gregório, quando pareceis endurecer-Vos, mais do que nunca quereis salvar-nos; ameaçais, mais com tais ameças não quereis outra coisa senão convidar-nos a fazer penitência.

Deus poderia castigar os pecadores de improviso e fazê-los morrer subitamente sem lhes dar sequer tempo de fazer penitência.Pelo contrário, Ele se mostra irado e se apresenta com flagelos na mão para vê-los recuperados em lugar de perdidos.

Disse o Senhor a Jeremias: "Talvez as ouçam eles e renunciem ao perverso comportamento.Arrepender-me-ei, então, dos males que cogito desencadear sobre eles" 9.Vá, disse-lhe, e diz aos pecadores que queiram ouvir-te, que se deixarem o pecado, Eu deixarei de enviar-lhes os castigos com que tenho pensado puni-los.

Compreendeis, meus irmãos!o mesmo vos faz ouvir hoje o Senhor pela minha boca.Se vós vos emendardes, ele revogará a sentença do castigo.Diz São Jerônimo: "Deus não nos odeia, mas odeia nossos pecados".E São João Crisóstomo acrecenta que Ele até esquece nossos pecados caso nós deles nos lembramos, quer dizer, sempre que nós humildemente nos emendarmos e pedirmos o perdão de nossas faltas, como Ele próprio o prometeu: "Eles se humilharam, não os deitarei a perder" 10.

Mas, para emendar-se, é preciso temer o castigo.Caso contrário, não nos resolveremos jamais a mudar de vida.É verdade que Deus proteje os que esperam na Sua misericórdia - "Ele é o escudo de todos os que n'Ele se refugiam" 11 -, mas esses são aqueles que esperam e que ao mesmo tempo temem a Sua justiça.Porque a esperança sem temor degenera em presunção e temeridade: "Confiam no Senhor os que temem o Senhor; Ele é o seu amparo e o seu escudo" 12.

Assim fala o Senhor nas Escrituras do rigor de Seu Juízo, do Inferno e do grande número de pessoas que nele cai: "Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, e depois disto nada mais podem fazer ...temei Aquele que, depois de matar, tem poder de lançar no inferno" 13. "Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição e numerosos são os que por aí entram" 14.

E por que Ele fala assim?Para que o temor nos afaste dos vícios, das paixões e das ocasiões de pecado.E assim possamos esperar a salvação, a qual não é dada senão aos inocentes ou aos penitentes que esperam e temem.

Ó, que força tem o temor do Inferno para refrear nossos pecados!Deus criou o Inferno com essa finalidade.Ele nos redimiu com Sua morte para nos ver salvos e nos impôs o preceito de esperar a salvação.E por isso nos dá ânimo dizendo que todos os que esperam n'Ele não se perderão: "Não, nenhum daqueles que esperam em Vós será confundido" 15.Para isso Ele quer e nos ordena que temamos a condenação eterna.

Os hereges ensinam que todos os justificados devem considerar-se infalivelmente como justos e predestinados.Mas eles foram judiciosamente condenados pelo Concílio de Trento 16, porque uma tal segurança é tão nociva para a salvação quanto é útil o temor."É a Ele que é preciso respeitar, a Ele que se deve temer" 17.O santo temor de Deus torna o homem santo.Por isso Davi pedia a Deus a graça do temor, para que o temor destruísse nele os afetos carnais: "O respeito que tenho por Vós me faz estremecer" 18.

Devemos portanto temer pelas nossas culpas, mas esse temor não deve abater-nos, mas dar-nos ainda mais confiança na divina misericórdia, como fazia o mesmo profeta dizendo ao Senhor: "Por amor de vosso nome, Senhor, perdoai meu pecado, por maior que seja" 19.Como assim?Diz ele, perdoai-me porque meu pecado é grande?Sim, porque a divina misericórdia resplandece mais onde maior é a miséria; e quem mais tem pecado, mais honra dá à misericórdia confiando em Deus, que promete salvar aqueles que n'Ele esperam: "E os salva, porque se refugiam n'Ele" 20.

Por isso diz o livro do Eclesiastes que o temor de Deus não traz pena, mas alegria e gáudio: "O temor do Senhor alegra o coração.Ele nos dá alegria, regozijo e longa vida" 21.Porque o próprio temor leva a adquirir uma firme esperança em Deus, que torna a alma feliz: "Aquele que teme o Senhor não tremerá.De nada terá medo, pois o próprio Senhor é sua esperança.Feliz a alma do que teme o Senhor" 22.Sim, bem-aventurada, porque o temor afasta o homem do pecado: "O temor do Senhor expulsa o pecado" 23.E dá ao mesmo tempo um grande desejo de observar os mandamentos: "Feliz o homem que teme o Senhor, e põe o seu prazer em observar os Seus mandamentos" 24.

É preciso persuadir-se que castigar não é conforme o modo de ser de Deus.Porque Ele é bondade infinita por sua própria natureza - Deus cuius natura bonitas, diz São Leão -, não tem outro desejo que fazer-nos bem e ver-nos contentes.Quando castiga, Ele se vê obrigado a fazê-lo para dar lugar à Sua justiça, mas não para comprazer uma inclinação.Isaías diz que castigar é uma obra alheia ao coração de Deus: "Porque o Senhor se levantará...e fremirá...para concluir Sua obra, Sua obra singular, para executar Seu trabalho, Seu trabalho inaudito" 25.E por isso diz o Senhor que por vezes Ele quase finge que vai enviar-nos um castigo: "Nutro o desígnio de lançar-vos uma desgraça" 26.Mas, por que faz assim?Eis porque: "voltai todos, portanto, do mau caminho" 27.O faz para nos ver emendados e assim libertados da pena merecida.

Escreve o Apóstolo que Deus "tem misericórdia de quem quer, e endurece a quem quer" 28.A respeito dessa passagem, diz São Bernardo que Deus, quando a Si, quer salvar-nos, mas nós é que o obrigamos a nos condenar 29.Ele se chama Pai das misericórdias, não das vinganças.De onde se segue que a razão para usar de piedade a tira de Si mesmo, mas para vingar-se a tira de nós.

E quem poderá jamais compreender quão grande seja a misericórdia divina? Diz Davi que Deus, mesmo quando está irado contra nós, tem compaixão de nós: "Estai irado e restabelecei-nos" 30.Ó ira misericordiosa, exclama o Abade Beronconsio, que se apressa em socorrer-nos e ameaça para perdoar-nos."Impusestes duras provas ao Vosso povo, fizestes-nos sorver um vinho atordoante" 31.

Deus se faz ver com a mão já armada de flagelos, mas o faz para ver arrependidos e compungindos pelas ofensas que Lhe estamos fazendo: "Mas aos que Vos temem destes um estandarte, a fim de que das flechas escapassem" 32.Faz ver-se com o arco já esticado, pronto para atirar a seta, mas não a lança, porque quer que nós, atemorizados, nos emendemos e assim sejamos livres do castigo, "para que Vossos amigos fiquem livres" 33.

Eu quero atemorizá-los, diz Deus, para que movidos por um tal temor se levantem do mau cheiro de seus pecados e reotrnem a Mim: "Vinde, voltemos ao senhor: Ele feriu-nos, Ele nos curará" 34.Sim, o Senhor, embora nos veja tão ingratos e merecedores do castigo, anela entretanto por nos livrar dele, porque, mesmo que ingratos, apesar de tudo Ele nos ama e nos quer bem.

"Dai-nos auxílio contra o inimigo" 35, assim pedia Davi, e assim devemos rezar também nós: Senhor, fazei que este flagelo que agora nos atribula nos faça abrir os olhos e abandonar o pecado.Porque se não acabarmos finalmente com o pecado, ele nos jogará na eterna danação, que é aquele castigo que não tem fim.

O que devemos fazer, caros ouvintes?Não vedes que Deus está irado?Ele não pode, não pode mais nos suportar: "Deus está irado".Não vedes que dia a da crescem os castigos de Deus?Crescem os pecados, diz São João Crisóstomo, e na mesma medida, com toda razão, crescem também as punições.

Deus está irado, mas, apesar de estar irado, hoje Ele me ordena aquilo que ordenou ao profeta Zacarias: "Dize a (este povo): Eis o que diz o Senhor dos exércitos: Voltai a mim...e eu voltarei a vós" 36.Pecadores, diz Deus, vós me destes as costas e por isso me obrigastes a vos privar de minha graça.Não me obrigueis a vos expulsar inteiramente de meu rosto e a vos punir com o Inferno, sem mais possibilidade de perdão.Acabai com isso, deixai o pecado e convertei-vos a Mim, e Eu prometo perdoar-vos todas as ofensas que me tendes feito e de abraçar-vos de novo como filhos: "Voltai a mim...e eu voltarei a vós".

Dizei-me, por que quereis vos perder? (Vede com quanta piedade vos fala o Senhor). "Por que havereis de morrer, israelistas?".Por que quereis vos jogar a vós mesmos para arder naquela fornalha de fogo? "Convertei-vos e vivereis!" 38.Retornai a Mim, que estou com os braços abertos para vos perdoar.

Disso não duvideis, meus pecadores, continua dizendo o Senhor."Aprendei a fazer o bem...pois bem, justifiquemos-nos, diz o Senhor.Se vossos pecados forem escarlates, tornar-se-ão brancos como a neve!" 39.Diz Deus: Eia! mudai de vida e vinde a Mim!E se Eu não vos perdoar, argüi-me, como se Me argüissem de ser infiel e mentiroso.Pelo contrário, Eu não serei infiel, e farei que vossas consciências manchadas se tornem, pela minha graça, brancas como a neve.

Não, Eu não vos castigarei se vos emendardes, diz ademais o Senhor, "não darie curso ao ardor de minha cólera...porque sou Deus e não um homem" 40.Quer dizer, os homens não se esquecem nunca das injúrias, mas Ele, quando vê um pecador arrependido, esquece todas as ofensas que Lhe fez: "não lhe será tomada em conta qualquer das faltas cometidas" 41.

Voltemos logo a Deus, mas rápido!Já basta o quanto O temos ofendido; não provoquemos ainda mais a Sua ira.Eis que Ele nos chama e está pronto a nos perdoar, se nós nos arrependermos do mal feito e Lhe prometermos mudar de vida.

[Aqui se faz o povo recitar o ATO DE CONTRIÇÃO E BOM PROPÓSITO, recorrendo finalmente a Maria santíssima para pedir o perdão e a perseverança].

1- Jr XXIX, 11
2- Sb XI, 23
3- Sb XI, 26
4- II PD III, 9
5- Jn III, 4
6- Jn III, 10
7- Jn IV, 1-2
8- Jn IV, 10-11
9- Jr XXVI, 3
10- II Cr XII, 7
11- Sl XVII, 31
12- Sal CXIII, 19
13- Lc XII, 4-5
14- Mt VII, 13
15- Sl XXV, 3
16- Sess 6, can 14 et 15
17- Is VIII, 13
18- Sal CXIX, 120
19- Sal 24,11
20- Sal XXXVI, 40
21- Eclo I, 12
22- Eclo XXXIV, 16-17
23- Eclo I, 27
24- Sal CXI, 1
25- Is XXVIII, 21
26- Ego fingo contra vos malum (Jr XVIII, 11)
27- Jr XVIII, 11.
28- Rm IX,18
29- Sed quod misereatur, proprium illi est; nam quod condemnet, nos eum cogimus (Ser. 5.n3)
30- Deus irarus es et misertus es nobis (Sl 59,3)
31- Sl LIX,5
32- Sl LIX,6
33- Sl LIX,7
34- Os VI,1
35- Sl LIX,13
36- Zc I,3
37- Ez XVIII, 31
38- Ez XVIII,32
39- Discite benefacere, et venite et arguire me, dicit Dominus, si fuerint peccata vestra ut coccinum, quasi nix dealbabuntur (Is I, 17-18).
40- Os XI, 9
41- Ez XVIII, 22

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Uma chave de ouro para o Céu

Arrependimento de São Pedro
Guercino: São Pedro chora diante da Virgem


A contrição perfeita
uma chave de ouro do Céu

Aos fiéis oferecida por J. de Driesch
Sacerdote da Arquidiocese de Colônia

Com um prólogo pelo P. Agostinho Lehmkuhl, S.J.
Tradução para o português
Bahia
Tip. de S. Francisco
1913



NIHIL OBSTAT.
Fr. Benigno Randebrock, O.F.M.
Cens. 
Dioc.

IMPRIMATUR.
Bahia, 11 de Março de 1913.
Mons. Castro,
Vigário Geral

Prólogo

Tanto pela importância da matéria, de certo bem pouco conhecida da maioria dos cristãos, como pela abundância de doutrina e o interesse com que ela é tratada no que diz respeito à sua utilidade prática, bem pode dizer-se que este livrinho encerra em suas poucas páginas o valor de muitos volumes

O grande meio de salvação chamou Santo Afonso Maria de Ligório a um livrinho que, entre muitos outros, compôs sobre a oração; e diz dele que queria vê-lo nas mãos de todos, por tratar de um meio tão principal e de tanta eficácia para assegurar o Céu às almas. Pois, com não menos verdade, ainda que em sentido algum tanto distinto, devemos dizer outro tanto da prática do amor e contrição perfeita, como sendo o grande meio de salvação, pois que está em conexão ainda mais imediata com a consecução da vida eterna do que somente a oração.

Por isso, queria eu, como Santo Afonso com o seu, ver este livrinho nas mãos de todos, persuadido de que a sua atenta leitura e a execução prática das doutrinas que nele se ensinam, abrirão as portas do céu a muitíssimas almas, para quem, sem ele, estariam eternamente cerradas, e de que hão de acrescentar de uma maneira inesperada o direito ao Céu e à eterna bem-aventurança a muitas outras que, pela guarda da graça santificante, já são credores dele.

Não devia haver cristão algum que não estivesse solidamente instruído sobre a transcendência que tem um ato de contrição e caridade perfeita, pois que é de incalculável importância tanto para a hora da morte própria como para a dos outros, a quem talvez tenha de assistir.

Assim, pois, ninguém deveria esquecer-se desta verdade em tempo de saúde; porém, para o tempo de enfermidade e de perigo sobretudo, é sumamente para desejar-se que a conheçam a fundo e profundamente a gravem na alma os que a têm esquecido ou só imperfeitamente a conhecem.

Oxalá, pois, se difunda o mais possível esta obrazinha, e não duvido de que a sua leitura será acompanhada de inumeráveis bênçãos do céu.

Pe. Agostinho Lehmkuhl, S.J.

Valkenburg, Colégio de Santo Inácio, outubro de 1903.

Introdução

Ao ver o título de Chave de ouro do Céu, parece-me, amado leitor, que estarás ansioso por ver se este livrinho corresponde por dentro ao que promete por fora. Mas, pode ser que te ocorram algumas suspeitas. Talvez que, nas práticas dominicais, o teu zeloso pároco te tenha prevenido contra certas folhas e publicações supersticiosas, contra as Chaves do Céu, os Ferrolhos do Inferno, as Orações maravilhosas autênticas e contra todas as mercadorias parecidas, chamem-lhe como quiserem.

"Porém, se este livrinho é o que deve e promete ser — dirás, de ti para ti — seria ditoso, teria uma chave do Céu, de que poderia muito bem aproveitar-me".
E verdadeiramente de ouro e digna, portanto, de todo o apreço deve ser a chave que este autor me apresenta reluzente diante dos olhos.

Se é de verdadeiro ouro, e não só de ouropel, estou feliz.

Sim, amado leitor, sólida e legítima é a chave e bem fácil de manejar por certo: é a contrição perfeita. Ela te abrirá, em cada dia e a cada momento, o Céu se o fechaste com o ferrolho do pecado mortal; e sobretudo se, no fim da tua vida, como pode suceder, não tiveres nem puderes ter a teu lado o sacerdote, que é o depositário das chaves da divina misericórdia, a contrição perfeita será a última e suprema chave com que, ajudado da graça de Deus, poderás franquear-te o Céu. Porém, para isso, é preciso que te acostumes a manejá-la em vida.

Pela contrição perfeita, estão salvas no Céu inumeráveis almas que, de outro modo, se teriam perdido para sempre. Já vês, pois, que é importante, e sumamente importante, o que te recomendo neste livrinho. Por isso, dizia o douto e piedoso cardeal Franzelin: "Se eu pudesse percorrer os campos pregando a palavra divina, nenhuma outra coisa pregaria com mais freqüência do que a contrição perfeita".

Mais adiante, no capítulo V, te direi como vim a escrever este livrinho e a percorrer assim os campos pregando a contrição perfeita. Deus Nosso Senhor, por seu amor e misericórdia, te assista com sua graça para que o compreendas, e, sobretudo, para que o pratiques, que é o que importa, conforme a sua doutrina.

Posto isto, começo em nome do Senhor.

I

Que é a contrição perfeita?


Contrição é uma dor da alma e uma detestação dos pecados cometidos. Deve acompanhá-la o propósito, quer dizer, uma firme vontade de emendar a vida e de não mais pecar. Para que a contrição seja legítima, deve ser interna e estar na alma, isto é‚ que não seja uma mera expressão feita com os lábios e sem reflexão: isto seria apenas contrição de boca.

Não é necessário manifestar exteriormente a contrição interna por meio de suspiros, lágrimas, etc.: tudo isto pode ser sinal de contrição, não é, porém, sua essência. A essência da contrição está na alma, na vontade, em afastar-se deveras do pecado e converter-se para Deus.

Além disto, a contrição deve ser geral, quer dizer, deve estender-se a todos os pecados cometidos ou, pelo menos, a todos os mortais. Deve, finalmente, ser sobrenatural e não meramente natural, pois esta nada aproveita.

Segue-se que a contrição, como todo o bem, deve proceder de Deus e da sua graça, e, com a graça de Deus, desenvolver-se na alma. Porém, não tenhas receio; basta que a peças, basta que tenhas boa vontade e te arrependas por algum motivo legítimo, sobrenatural, e Deus te dará a graça necessária.

Se o motivo se funda na natureza ou somente na razão (por exemplo, nos danos temporais, na vergonha, doença, etc.), é muito fácil que a dor seja puramente natural e sem mérito; porém, se o motivo da contrição é alguma verdade da Fé, por exemplo: o inferno, o purgatório, o céu, Deus, etc., então a contrição é legítima, sobrenatural.
E esta contrição legítima e sobrenatural pode, por sua vez, ser de duas classes: perfeita e imperfeita; e com isto temos chegado a nossa matéria da contrição perfeita.

Em poucas palavras, contrição perfeita é a contrição que procede de amor; imperfeita, a que procede do temor de Deus.

É contrição perfeita quando procede de amor perfeito a Deus. Pois bem, o nosso amor a Deus é perfeito quando o amamos porque Ele é em Si infinitamente perfeito, formoso e bom (amor de benevolência), e porque nos mostrou de uma maneira tão admirável o seu amor (amor de agradecimento).

É imperfeito o amor de Deus quando o amamos porque esperamos alguma coisa dEle. De modo que, com o amor imperfeito, pensamos sobretudo nos dons; com o perfeito, na bondade do dador; com o amor imperfeito, amamos mais os dons; com o perfeito amamos mais o dador, e isto não tanto pelos seus dons como pelo amor e bondade que nos dons se manifesta.

Do amor nasce a contrição. Será, pois, perfeita a contrição se nos arrependermos dos pecados por amor perfeito de Deus, quer seja de benevolência quer de agradecimento. Será imperfeita se nos arrependermos dos pecados por temor de Deus, porque pelo pecado perdemos a recompensa de Deus, o Céu, e merecemos seu castigo, o inferno ou o purgatório.

Na contrição imperfeita, fixamo-nos principalmente em nós e nas desgraças que, segundo a Fé nos ensina, nos acarretou o pecado. Na contrição perfeita, fixamo-nos sobretudo em Deus, na sua grandeza, na sua formosura, amor e bondade, vendo quanto o pecado O ofende, e que foi o pecado que Lhe ocasionou tantos sofrimentos e dores para nos redimir.

Na contrição perfeita, não queremos unicamente o nosso bem, senão o bem de Deus.

Com um exemplo o verás melhor. Quando São Pedro negou o Divino Salvador, saiu fora e "chorou amargamente" (I Lc 22,62). — Por que chora São Pedro? É, porventura, pensando na vergonha que vai ter diante dos outros apóstolos? Se assim fosse, a sua dor teria sido puramente natural e sem mérito. É porque receia que seu Divino Mestre lhe tire, como ele merece, o cargo de Apóstolo e Superior e o expulse do seu reino? Então seria boa contrição, mas somente imperfeita. Mas, não; Pedro arrepende-se e chora, antes de tudo, porque ofendeu a seu amado Mestre, tão bom, tão santo, tão digno de ser amado e por ser tão desagradecido ao seu imenso amor por ele. Tem, pois, verdadeira e perfeita contrição.

Agora dize-me: tens tu também, cristão de minha alma, algum fundamento, algum motivo, parecido com o de São Pedro, para te arrependeres dos teus pecados por amor, e por amor perfeito e agradecido? Sim, certamente, pois os benefícios que Deus te tem feito são mais que os cabelos da tua cabeça, e, considerando-os, podes dizer, em cada um deles, o que dizia São João: "Amemos a Deus já que Ele nos amou primeiro" (I Jo 4,19).

E como te amou?

"Com amor eterno te amei — disse Ele — e me compadeci de ti e te atrai a mim" (Jer 31,3).

Sim, com amor eterno te amou. Desde toda a eternidade, desde quando ainda não havia nem um átomo de ti sobre a terra, te olhou com aqueles seus olhos amorosos e que tudo penetram, e te preparou alma e corpo, céu e terra, com o amor com que uma mãe prepara todo o necessário para o filhinho que ainda não nasceu. Ele deu-te a saúde e a vida, Ele te deu e te dá, em cada dia, todos os bens naturais. Consideração esta que até aos pagãos pode fazê-los chegar ao conhecimento e amor perfeito de Deus; quanto mais a ti, cristão, que conheces outro gênero muito diferente de amor e de bondade, o amor e bondade sobrenatural de Deus para contigo; porque Deus se compadeceu de ti; e quando, com todo o gênero humano, estavas condenado pela culpa original, Deus enviou o seu Unigênito Filho, e Ele se fez teu Salvador e te remiu com seu sangue, morrendo na Cruz. E em ti pensava com entranhado amor quando agonizava no horto das Oliveiras, e quando derramava o seu sangue com os açoites e os espinhos, e quando subia arrastando a pesada Cruz pelo longo e áspero caminho do Calvário; e quando, cravado nela, se desfazia em sangue entre indizíveis tormentos. Em ti pensava com entranhado amor, como se tu foras o único homem da terra.

Que tens a concluir daqui? "Amemos a Deus já que Ele nos amou primeiro" (I Jo 4,19).

E Deus te atraiu a Ele pelo batismo, graça capital e primeira da tua vida, e pela Igreja, em cujo seio foste então admitido. Quantos há que, só a força de trabalhos e canseiras, conseguem encontrar a verdadeira Fé, e a ti te a ofereceu Deus desde o berço, por puro amor. Atraiu-te a Ele e te atrai sempre pelos sacramentos e pelas inumeráveis graças interiores e exteriores de que te enche todos os dias, pois, em verdade, estás nadando, como em imenso mar, na bondade e amor de Deus. E este amor, quer ainda coroá-lo colocando-te consigo no Céu e fazendo-te eternamente feliz. Que lhe deves por tanto amor? Não é verdade que deves corresponder a ele? Amemos também a Deus já que Ele nos amou primeiro.

Pois, vamos a contas e dize-me: Como tens pago a Deus, tão bom e amoroso, o seu amor e bondade para contigo? Dir-me-ás, sem dúvida, que com ingratidão e pecados. E pesa-te essa ingratidão? Sem dúvida que sim e queres ressarcir a tua pesada ingratidão, amando quanto possas tão grande e amoroso benfeitor. Pois, olha, se assim é, já tens contrição perfeita, contrição de amor de Deus. Para facilitar, chama-se a esta contrição de amor de Deus, contrição de amor ou de caridade.

Na mesma contrição de caridade, há uma mais levantada, que é quando alguém ama a Deus porque Ele é em si infinitamente formoso, glorioso, perfeito e digno de amor, prescindindo do seu amor e misericórdia para conosco. Há estrelas — e com esta comparação julgo que entenderás melhor — que, por estarem muito longe de nós, não as podemos distinguir, e, contudo, são tão grandes e formosas como o sol, que tão prodigamente nos dá o calor e a vida. Pois assim, ainda quando o homem não tivesse visto nem gozado nunca do amor de Deus, eterna estrela do céu, ainda quando Deus não tivesse criado o mundo nem criatura alguma, seria apesar disso grande, formoso, glorioso e digno de ser amado, porque é em si mesmo e para si, o bem mais excelente, o mais perfeito e digno de amor. Isto e não outra coisa quer dizer essa expressão que, mais de uma vez, terás encontrado nos devocionários e nas fórmulas do ato de contrição e te terá parecido talvez algum tanto obscura.

Detém-te, pois, agora e contempla o amor de Deus; contempla-o, sobretudo, nos amargos sofrimentos do Salvador, a cuja luz o compreenderás tão facilmente como facilmente te arrebatará o coração.

Eis aqui o modo de alcançar praticamente a contrição perfeita.


II

Como se excita a contrição perfeita?


Hás de pressupor que a contrição perfeita é graça e grande graça do amor e misericórdia de Deus; e, se assim é, hás, portanto, de pedi-la com instância. Porém, não te contentes com fazê-lo somente quanto trates de excitar a contrição, porque o desejo de alcançá-la deve ser um dos mais ardentes anseios de tua alma. Pede-a, pois, dizendo: Senhor, dai-me a graça do perfeito arrependimento, da perfeita contrição dos meus pecados. E Deus não te faltará com a sua graça, se tiveres boa vontade.

Posto isto, repara como poderás facilmente conseguir a contrição perfeita.

Põe-te diante de um crucifixo, na igreja ou na casa de tua habitação, ou senão imagina que o tens diante de ti, e, chorando de compaixão à vista das feridas do Senhor, pensa uns momentos com fervor: Quem é este que está pendente da Cruz e sofrendo nela? — É Jesus, meu Deus e Salvador. Que sofre? — As mais terríveis dores no corpo, tem-no ensangüentado e coberto de feridas; a alma, tem-na lacerada pelas dores e afrontas. Por que sofre tudo isso? — Pelos pecados dos homens e... também pelos meus pecados; em meio de suas amarguradas dores, também pensa em mim, também sofre por mim, também quer expiar os meus pecados. — Entretanto, deixa que o sangue redentor do Salvador, quente ainda, caia sobre ti, gota a gota, e pergunta a ti mesmo como tens correspondido ao teu Salvador, tão atormentado por ti.

Pensa um momento, recorda teus pecados, e esquece-te, se quiseres, do Céu, do inferno, e arrepende-te principalmente porque são eles que a tão miserando estado reduziram o teu Salvador; promete-lhe que não tornarás a crucificá-Lo com mais pecados e, por fim, reza, pausadamente e com fervor, acompanhando com sentimento interno, as palavras, a fórmula da contrição.

Esta oração ou fórmula pode ser diversa e ainda pode cada um servir-se para ela de suas próprias palavras. No fim do livrinho, encontrarás algumas; contudo juntarei aqui uma bastante vulgar:

Senhor meu e Deus meu: pesa-me, do mais íntimo do coração, de todos os pecados de minha vida, porque com eles tenho merecido que a vossa divina Justiça me castigasse na vida e na eternidade; porque tenho correspondido ao vosso amor com tanta ingratidão, sendo como sois o meu maior benfeitor; porém, sobretudo, porque com eles Vos tenho ofendido a Vós, meu bem supremo e digno de todo o amor. Proponho firmemente emendar-me e não mais pecar. Dai-me, meu Jesus, a graça para cumpri-lo. Amém.

Três porquês contém esta oração, e a cada porquê acompanha um motivo de contrição, primeiro da imperfeita, depois da perfeita; pois, da imperfeita se passa mais facilmente para a perfeita e é por isto conveniente unir as duas espécies de contrição. Em outras palavras, convém que se excite em primeiro lugar a contrição imperfeita e depois a perfeita. Dize, pois:

1 — "porque com eles, tenho merecido..." Isto é ainda contrição imperfeita.

2 — "porque tenho correspondido..." Esta vai já se aproximando da contrição perfeita e até se reduz a ela; porque, se deveras sinto ter correspondido com ingratidão e com pecados ao amor e bondade de Deus, necessariamente hei de querer ressarcir com amor esta ingratidão; e o sentir por amor a ofensa do benfeitor, a quem até agora se desconhecia, é já contrição perfeita, contrição de caridade para com Deus.

3 — "porém, sobretudo, porque com eles Vos tenho ofendido..." Se voltares a ler o capítulo I, entenderás o que isto significa e, entendendo-o, verás mais claramente expressado aqui o amor perfeito e a contrição perfeita. Para consegui-lo mais facilmente, podes acrescentar, mentalmente ou por palavras, o que segue: "porém, sobretudo, porque com eles Vos tenho ofendido a Vós, meu bem supremo e digno de todo o amor. Salvador meu que, por meus pecados, morrestes na Cruz".

Depois vem o propósito: "Proponho..."

— Porém, padre — dir-me-ás talvez — para outros, será isso muito fácil, mas para mim, é coisa muito difícil, quase impossível. — Parece-te isso? Pois não o julgues tal.

III

É difícil exercitar a contrição perfeita?


Antes de tudo, é verdade que, para a contrição perfeita, se requer mais do que para a imperfeita, que é a de que se necessita para a Confissão.

Contudo, porém, ajudado com a graça de Deus, pode qualquer um alcançar a contrição perfeita, bastando que deveras a deseje, porque a verdadeira contrição está na vontade e não no sentimento. Tudo se reduz a termos o devido motivo de arrependimento, quer dizer, que nos arrependamos porque amamos a Deus sobre todas as coisas e, por seu amor, detestamos os nossos pecados; nisto, e não na duração ou intensidade da dor, está a contrição perfeita. Digo isto, porque muitas vezes se confunde a contrição perfeita com certa contrição que há, altíssima e sublime, não se advertindo que a contrição perfeita tem seus graus e degraus, e que, para que o seja, não é necessário que chegue à contrição altíssima e firmíssima de São Pedro, de Madalena, de São Luiz Gonzaga e de outros santos: muito bom seria isso, mas não é necessário; um grau mais baixo de contrição perfeita e verdadeira basta para perdoar os pecados.

Além disso, advertirás uma coisa, que me parece te animará e te dará confiança para poderes alcançar a contrição perfeita. Antes de Jesus Cristo, na Lei antiga, por espaço de 4.000 anos, foi a contrição perfeita o único meio que tiveram os homens para alcançarem o perdão dos pecados e entrarem no Céu. E hoje mesmo a milhões e milhões de pagãos e hereges que só e unicamente pela contrição perfeita, podem sair do pecado. Portanto, se é verdade, como é, que Deus não quer a morte do pecador, parece natural que não haja exigido para a contrição perfeita ato demasiadamente difícil, mas antes que esteja ao alcance de todos. Pois, se podem alcançar a perfeita contrição tantos e tantos que vivem e morrem afastados, é verdade que sem culpa sua, da corrente da graça e da Igreja Católica, ser-te-á isto a ti difícil, a ti, que tens a grande dita de ser cristão e católico, a ti, que tens muito mais graças e estás mais instruído do que eles?

E ainda te digo mais: muitas vezes, sem o saber ou sem o pensar, tens realmente contrição perfeita; quando, por exemplo, ouves piedosamente a santa Missa, quando fazes com devoção a Via-Sacra, quando meditas com fervor diante de uma imagem de Jesus crucificado ou do Sagrado Coração, ou assistes à pregação da palavra divina.

Além disso, muitas vezes pode-se exprimir com poucas palavras o amor mais ardente e a mais profunda contrição, atendendo só ao sentido e ao motivo (o amor de Deus). Por exemplo, com estas jaculatórias:

"Deus meu e meu tudo!";
"Meu Jesus, misericórdia!";
"Ó meu Deus, amo-Vos sobre todas as coisas!";
"Meu Deus, compadecei-Vos de mim pecador!"
"E Pequei, já minha alma
Sua culpa confessa;
Mil vezes me pesa
De tanta maldade.
Mil vezes me pesa
De haver, obstinado,
Teu peito rasgado,
Ó suma Bondade!"

Finalmente, se tão soberanos efeitos obra Deus pela contrição perfeita, sinal é de que quer que a excitemos e de que Ele nos ajudará para consegui-la.

E que efeitos são estes que produz a contrição perfeita?

IV
Que efeitos produz a contrição perfeita?


Efeitos verdadeiramente admiráveis!

Se és pecador, perdoa-te imediatamente os pecados e isto de cada vez e ainda antes de receberes o sacramento da Confissão; necessário é, porém, que tenhas vontade de confessá-los mais tarde (vontade esta que já está incluída na contrição perfeita). E este efeito é produzido pela contrição perfeita e verdadeira não só em perigo de morte, mas sempre e quando a excitamos no coração; de modo que o pecador, ao mesmo tempo que lhe são remitidas as penas do inferno, recobra os méritos passados e, de inimigo de Deus, se faz seu filho e herdeiro do Céu.

Se és justo, a contrição perfeita assegura-te e aumenta-te o estado de graça, apaga-te os pecados veniais que, pelo ato de contrição de caridade, detestaste; perdoa-te, sobretudo, as penas dos pecados, firmando e robustecendo-te no verdadeiro e sólido amor de Deus.

Tais são as maravilhas que o amor e a misericórdia de Deus obram na alma do cristão pela contrição perfeita.

Tão grandes são que, talvez, te pareçam incríveis; tratando-se do perigo de morte, já terás ouvido que se devem pedir a contrição e a dor; mas que também, em tempo de saúde e em qualquer tempo, a contrição perfeita obre tais maravilhas, mal te atreverás a acreditá-lo.

— Será, pois, certa e segura esta doutrina da contrição perfeita?

Digo-te que é tão firme e tão segura como a própria palavra de Deus.

No Concilio ecumênico de Trento, onde a Igreja declarou e explicou os principais ensinamentos divinos que já eram correntes nela e eram combatidos por muitos hereges, diz-se na Sessão 14, cap. 4: "A contrição perfeita, a contrição que procede do amor de Deus, justifica o homem e reconcilia-o com Deus ainda antes de receber o sacramento da Confissão".

Como o Concilio não diz que isto seja só em tempo de necessidade e em perigo de morte, segue-se que a contrição perfeita produz sempre este efeito. E, para o afirmar, apoia-se a Igreja na palavra e ensino de Jesus Cristo, que diz entre outras coisas: "Se alguém me ama (e isto só o faz o que tem verdadeira contrição no coração), meu Pai o amará e Nós viremos a ele e faremos nele morada" (I Jo 14,23).

Para que, porém, Deus possa habitar na alma, é preciso que o pecado tenha desaparecido; logo, o apagar o pecado é um dos efeitos da contrição perfeita, da contrição de caridade.

Assim também o tem declarado sempre a Igreja infalível, chegando a condenar como herege, Baio, por dizer o contrário.

O mesmo ensinam os Santos Padres e Doutores sagrados sem exceção e o mesmo confirma a razão, porque se, como já disse, tão grandes efeitos produzia a verdadeira contrição no Antigo Testamento, quando ainda imperava a lei do temor, quanto maior produzirá no Novo, em que impera a lei do amor!

— Dir-me-ás, talvez, porém, se a contrição perfeita destroi os pecados, a que vem confessá-los depois?

Sim, é verdade; a contrição perfeita faz o mesmo que a Confissão, faz com que desapareçam da alma os pecados; não o faz, porém, com independência do sacramento da Confissão, porque é necessário ter vontade de confessar mais tarde os pecados destruídos ou apagados pela contrição perfeita. E isto porque é lei de Jesus Cristo que se confessem todos os pecados, pelo menos todos os mortais, e esta lei, de forma alguma, se pode mudar.

Verdade é que, se alguém não quisesse depois confessar os pecados que lhe foram perdoados pela contrição perfeita, não os contrairia novamente; mas é certo que perderia de novo o estado de graça, precisamente por faltar à obrigação de confessá-los.

— E devemos confessar os pecados logo que o possamos fazer depois da contrição de caridade?

— Em rigor, não é necessário; porém, de todo o coração, aconselho-te e recomendo-te que o faças; assim estarás mais seguro de ter alcançado o perdão e conseguirás, por sua vez, as grandes graças que traz consigo o sacramento da Confissão e que se chamam graças sacramentais.

Talvez que alguém, tentado pelo demônio, vendo os grandes efeitos da contrição perfeita, diga: "Pois se é tão fácil alcançar o perdão dos pecados com a contrição perfeita, já não preciso mais me confessar; peco quanto quiser, arrependo-me depois com contrição perfeita, e estou pronto. Não é assim?"

Não, de forma alguma; porque quem assim pensa não tem nem sombra de contrição. Não ama a Deus sobre todas as coisas logo que não queira em tudo e por tudo romper com o pecado mortal, nem trata seriamente de emendar a sua vida, coisa que tanto se requer para a Confissão como para a contrição perfeita; em uma palavra, falta-lhe boa vontade e, faltando-lhe esta, faltar-lhe-á a graça de Deus, sem a qual a contrição perfeita é absolutamente impossível.

Poderá enganar-se a si mesmo, jamais, porém, enganará a Deus Nosso Senhor. Aquele que tem contrição perfeita, está inteiramente resolvido a romper com o pecado mortal; receberá logo que possa e com mais fervor do que dantes, os santos sacramentos, e com a sua boa vontade, ajudada da graça de Deus, conservar-se-á livre de pecado e se firmará mais e mais no feliz estado de filho de Deus.

A quem, de modo especial, a contrição perfeita auxilia, é aos que leal e sinceramente querem adquirir e conservar o estado de graça e, sobretudo, aos que pecam por costume, isto é, aos que, ainda que tenham boa vontade, a força dos maus hábitos e a própria fraqueza os fazem cair de vez em quando; porém, de forma alguma, a contrição perfeita ajuda aos que se acolhem a ela para pecarem mais à vontade. E estes convertem o celestial remédio do perfeito arrependimento em narcótico fatal e em infernal veneno.

Não sejas, pois, destes, leitor amado; não consintas, incauto, que graça tão preciosa como a contrição perfeita te sirva para o mal, senão para o bem, já que tão grandes bens produz na alma do cristão.

— E que bens são esses que produz a contrição perfeita?

V

Por que é tão importante e até necessária a contrição perfeita?


É importante na vida e na morte.


I — É importante na vida

Porque: que precioso não é o estado de graça!

A graça não adorna somente a alma, mas invade-a e penetra-a toda, e transforma-a em uma nova criatura, em filha de Deus e herdeira do céu. Além disso, faz com que todas as obras e trabalhos do cristão sejam meritórios para o Céu; a graça é a varinha mágica que tudo converte em ouro, porém em ouro de méritos celestiais.

Pelo contrário, que triste é o estado do cristão que jaz em pecado! Todos os seus trabalhos, todas as suas orações, todas as suas boas obras ficam inúteis e sem mérito para o Céu; é inimigo de Deus e, no momento em que o tênue fio da vida se parta, cairá precipitado no inferno. Não será, pois, importante e necessário o estado de graça para o cristão?

Pois, se o perdeste, podes recuperá-lo, principalmente de duas maneiras:

1º Pela Confissão.

2º Pela contrição perfeita.

A Confissão é o meio adequado e ordinário para alcançar a graça santificante. Como este meio, porém, nem sempre está ao nosso alcance, Deus deu-nos outro extraordinário, que é a contrição perfeita.

Imagina que, um dia, tens a imensa desgraça de cometer um pecado mortal. Quando, passada a agitação do dia, vem o sossego da noite, a tua consciência angustiada levanta-se e clama com voz poderosa. — Confessar-se agora... não é possível. Como remediar este estado? Pois olha, Deus põe em tuas mãos a chave de ouro que te vai abrir as portas do Céu; arrepende-te de teus pecados por verdadeiro amor de Deus, protesta-lhe firmemente não tornar a cometê-los, promete confessá-los quanto antes, e podes acreditar que estás reconciliado com Deus; deita-te tranqüilo.

Porém, se o cristão não conhece nem pratica a contrição perfeita, que triste estado o da alma! Em pecado mortal se deita e se levanta, e assim vive dois, três, quatro meses e mais, até a Confissão seguinte.

E talvez que, neste estado, continue por anos inteiros, sem que a profunda noite do pecado seja interrompida, nem um momento sequer, na sua alma pelos raios do sol da graça depois da Confissão. Triste estado! Viver quase sempre em pecado, inimigo de Deus, sem mérito para o Céu e em perigo de eterna condenação!

Mais; quando alguém, antes de receber um sacramento, por exemplo, o da Confirmação, o do Matrimonio, se lembra de um pecado grave não perdoado, pode, pela contrição perfeita, fazer-se digno de receber o sacramento. Somente para a Comunhão, isso não basta; é necessária a Confissão.


* * *


Também para o cristão que está em estado de graça, é importante o uso freqüente da contrição perfeita.

Antes de tudo, nunca podemos estar completamente seguros de que estamos em estado de graça. Porém, esta segurança aumenta e se confirma com cada ato de verdadeira contrição perfeita.

Sucede, além disso, que alguém tenha dúvida sobre se consentiu em alguma tentação; estas dúvidas acovardam e desalentam a alma no caminho da virtude. Que há a fazer nestes casos? Examinar se consentimos ou não? Isso de nada aproveita. Excita-te à contrição perfeita e fica tranqüilo.

Porém, ainda que tivéssemos toda a certeza possível de que estamos em graça, que preciosa não é a contrição perfeita!

Por cada ato de contrição perfeita, aumentamos este estado de graça na alma, e cada grau de graça vale mais do que todas as riquezas do mundo.

Por cada ato de contrição perfeita e caridade, destroem-se os pecados veniais e as faltas que mancham a alma, e esta fica cada vez mais formosa diante de Deus.
Por cada ato de contrição perfeita, são perdoadas as penas temporais dos pecados (*).

(*) Quer dizer que se perdoam sempre algumas penas e até todas, se o ato for mui intenso (N. do T.).

Recorda-te do que o Senhor disse à Madalena: "Perdoados lhe são muitos pecados, porque amou muito" (Lc 7,47). E se tanto apreciamos, e com razão, as indulgências, as boas obras, as esmolas, incluamos entre estas a caridade, a rainha das virtudes.

Por cada ato de contrição perfeita vai a alma confirmando-se mais e mais no bem e robustecendo-se contra o mal, de modo que, com razão, pode esperar a suprema graça da perseverança final. Já vês, pois, que é importante a contrição perfeita na vida. Porém, de modo particular.


II — É importante na morte

Sobretudo em perigo de morte repentina.

Houve um grande incêndio numa cidade, e neste pereceram centenas de pessoas. Entre muitas que gemiam no pátio de uma casa, via-se um menino de doze anos que, de joelhos, pedia em voz alta a graça da contrição; explicou depois porque o fazia e suplicou que orassem com ele em voz alta.

Talvez que, por seu intermédio, muitos daqueles infelizes se salvassem para sempre.

Perigos como este sem conta te cercam e, quando menos o penses, podes ser vítima de uma desgraça repentina: podes, por exemplo, cair de uma árvore; podes ser atropelado por um carro na rua; podes ser surpreendido de noite, pelo fogo, na tua habitação; podes colocar mal o pé em uma escada; pode ser que, enquanto trabalhas, te falte repentinamente os sentidos e caias... levam-te moribundo à casa, vão a correr chamar o sacerdote; este, porém, tarda em chegar, e urge tanto!... Que fazer? Excita-te em seguida à contrição perfeita, arrepende-te por amor e gratidão para com Deus, e Jesus Cristo paciente salvar-te-á por toda a eternidade; a contrição perfeita terá sido para ti a chave do Céu no último momento e no último e supremo transe para a alma e para o corpo.

Com isto, não desejo que alguém se aventure a deixar tudo para o último momento, à mercê de um ato de contrição perfeita, julgando ficar já por isso livre de pecado, pois é muito duvidoso que a contrição perfeita possa servir aos que têm pecado à sua sombra. O que deixo dito vale, antes de tudo e sobretudo, para os que têm boa vontade.

— Porém, haverá tempo — dir-me-ás — em tais circunstâncias, para fazer um ato de contrição perfeita?

Com a ajuda de Deus, sim; porque, para a contrição perfeita não se requer muito tempo, sobretudo quando antes, em tempo de saúde, nos temos exercitado nela; em um momento a podemos excitar e penetrar na alma. E como, em casos tão extraordinários, tem mais eficácia a graça de Deus, e o espírito, mais atividade no transe tremendo da morte, dos momentos se fazem horas. Lembra-te de que falo por experiência própria.

Uma vez, a 20 de julho de 1886, estive em grande e terrível perigo de morte, seria coisa de oito ou dez segundos, o espaço para meio Pai-Nosso. Pois, em tão curto espaço de tempo, mil pensamentos cruzaram-se em minha mente; a minha vida inteira passou diante de minha alma, com rapidez incrível, e, atrás dela, o que seria de mim depois da minha morte; tudo isto, como disse, num espaço de tempo insignificante, o suficiente para meio Pai-Nosso. Por dita minha, porém, e grande favor de Deus, a quem rendo graças, não foi aquele momento para morte, mas sim para vida; — do contrário, não teria podido escrever a Chave de ouro.

Pois, a primeira coisa que fiz, em tão terrível momento, foi o que, segundo o Catecismo, deve fazer todo o cristão em perigo de morte: excitar-se à contrição e recorrer a Deus pedindo-a e implorando-a a seu favor.

E a verdade é que, naquela ocasião, creio que aprendi a amar e apreciar o valor da contrição perfeita; desde então tenho difundido, quanto me tem sido possível, o seu conhecimento e estima.

E esta misericórdia, que podes exercitar na tua alma no último momento, podes exercitá-la também com os demais cristãos, teus irmãos.

E quão triste é que, em tão apurado transe, não seja isto melhor compreendido!

Acode muita gente, choram e gritam desordenadamente, e, sem saber que fazer, correm à procura do medico e do sacerdote, trazem todos os remédios que têm em casa e, entretanto, o enfermo agoniza, e... naqueles breves mas preciosos momentos, talvez não haja quem se compadeça da sua alma imortal e lhe proponha que faça um ato de contrição perfeita e o salve para sempre.

Se te apresentar ocasião, vai com sossego e tranqüilidade para o lado do moribundo ferido ou enfermo; se te for possível, põe-lhe o Crucifixo diante dos olhos e, com voz firme mas tranqüila, pede-lhe que pense e repita com o coração o que tu vais rezar; e, feito isto, vai dizendo compassada e claramente o ato de contrição, ainda que te pareça que ele nada ouve nem entende. Com isto, terás feito uma obra sumamente boa, e o moribundo te agradecerá eternamente no Céu. Sim, até mesmo a um herege, podes ajudar desta maneira em seus últimos momentos; não lhe fales, se queres, de Confissão, porém excita-o a que faça um ato de amor de Deus e de Jesus Crucificado e dize-lhe compassadamente o ato de contrição.

VI

Quando se deve excitar a contrição perfeita?


1. Se, com fidelidade e bom desejo, me tens seguido até aqui, cristão leitor, deixa que, olhando-te afetuosamente e apertando-te a mão, te diga de todo o coração e com a maior insistência: dá este prazer a Deus e à tua alma: fase devotadamente todas as noites, com tuas orações, um ato de contrição perfeita. Não deixes passar noite alguma sem exame de consciência e contrição, como não deixes passar manhã alguma sem purificar a intenção. Não pecarás, é claro, se o deixares de fazer alguma vez; porém tem por bom e saudável o conselho que te dou.

E não me digas que isso de exame de consciência e contrição é coisa própria de sacerdotes e homens perfeitos e não para ti; não te escuses com o "não há tempo"; "está a gente tão cansado quando chega a noite..."

Quanto tempo julgas que é necessário? Meia hora? Não. Um quarto de hora? Também não; alguns poucos minutos bastam. Não costumas recitar algumas orações antes de te deitares?

Pois, em seguida à tua pequena oração, pensa uns momentos nas faltas e pecados do dia que acaba de passar, e reza, pausadamente e com fervor, diante do Crucifixo, o ato de contrição. Depois podes recolher-te tranqüilo. Deste ao Senhor as boas noites, e ele te respondeu: "Boa noite, filho". Ele perdoou-te misericordiosamente os teus pecados. Que te parece? Fá-lo desde esta noite e jamais te arrependerás.


2. Se, nesta vida, tiveres a imensa desgraça de cometeres um pecado mortal, não permaneças mergulhado em tão grande miséria; levanta-te pela contrição perfeita, levanta-te imediatamente, ou, o mais tarde, logo que faças as tuas orações da noite; depois não demores muito em confessar-te.

3. Finalmente, cristão da minha alma, mais tarde ou mais cedo, terás que morrer, e se, o que não te desejo, a morte te colhesse de improviso, já sabes onde está o remédio, já sabes onde está a chave do Céu.

Chama imediatamente por Deus com íntima e perfeita contrição, e, se em vida te exercitares nela gostosa e devidamente, não te faltarão então tempo, vontade e graça de Deus para teres firme contrição perfeita, e a contrição perfeita te salvará.

4. Porém, se antes de morrer, tens tempo para prevenir-te e preparar-te para o caminho da eternidade, que a última coisa que na terra penses e faças, com conhecimento, seja um ato de entranhado amor de Deus, teu Criador, teu Redentor, Salvador e Juiz; um ato de sincera e perfeita contrição de todos os pecados da tua vida. Feito isto, lança-te com confiança nos braços da misericórdia divina e Deus será para ti bondoso Juiz.

Com isto, me despeço de ti, amado leitor; vê e faze o que neste livrinho tens lido. Ama e pratica a contrição perfeita, meio esplêndido de graça que a divina misericórdia põe em tuas mãos para saíres do pecado mortal em qualquer momento, e não só em perigo de morte; meio fácil, que tão grandes efeitos produz; meio supremo e único que, em caso de necessidade, salvará a tua alma; fonte, enfim, de graças na vida e na morte — verdadeira chave de ouro do Céu.

Atos de Contrição

1. Senhor meu Jesus Cristo, Deus e homem verdadeiro, Criador e Redentor meu, por serdes Vós quem sois, e porque Vos amo sobre todas as coisas, pesa-me de todo o coração de Vos ter ofendido; proponho firmemente nunca mais pecar, confessar-me, cumprir a penitência que me for imposta, e afastar-me de todas as ocasiões de Vos ofender; ofereço-Vos a minha vida, obras e sofrimentos em satisfação de todos os meus pecados, e confio na vossa bondade e misericórdia infinitas que os perdoareis pelos merecimentos do vosso preciosíssimo Sangue, Paixão e Morte, e me dareis graça para emendar-me e perseverar em vosso santo serviço até o fim da minha vida. Amém.




2. Senhor meu e Deus meu! Do íntimo do coração, me pesa de todos os pecados da minha vida. Pesa-me porque com eles mereci o purgatório ou o inferno; porque tenho desprezado o céu e porque tenho sido tão ingrato para convosco, o meu maior benfeitor. Pesa-me, sobretudo, porque, com os meus pecados, Vos tenho açoitado e crucificado, a Vós meu amabilíssimo Salvador. Agora, porém, amo-Vos, meu maior benfeitor, meu pai amabilíssimo e misericordiosíssimo Redentor; amo-Vos de todo o coração e sobre todas as coisas, e, porque Vos amo, me pesa e me arrependo de Vos ter ofendido, Deus meu, que sois infinitamente formoso, bom e digno de ser amado. Proponho firmemente emendar a minha vida e não mais pecar. Ó meu Jesus! dai-me a vossa graça para cumpri-lo. Amém.




3. Senhor meu Jesus Cristo, Deus e homem verdadeiro, Vós me criastes à vossa imagem e semelhança, Vós me remistes com infinito amor, morrendo na Cruz e me quereis levar ao Céu para me fazer eternamente feliz. Eu, em troca, tenho-Vos ofendido tantas vezes com meus pecados e tenho merecido justos castigos nesta vida e na outra. Sim, sou culpado do vosso Sangue e de vossas feridas; tenho afligido e amargurado o vosso amantíssimo Coração de Redentor com meus pecados e minha ingratidão. Detesto esta ingratidão e, para compensá-la, amo-Vos com mais ardente amor, sobre todas as coisas. E, porque Vos amo, pesa-me de todo o coração e sobre todas as coisas, de Vos ter ofendido, Senhor meu e Deus meu. Perdoai-me, eu Vos peço. Quero desde este momento emendar-me com fervor. Dai-me, Jesus misericordioso, a vossa graça para isto. Amém.


Ato de amor perfeito e contrição perfeita, 
atribuído a São Francisco Xavier:

Não me move meu Deus, para querer-te,
O Céu que me tens prometido,
Nem me move o inferno, tão temido,
Para deixar por isso de ofender-te.
Tu me moves, Deus meu, move-me o ver-te
Cravado em uma cruz, escarnecido;
Move-me o ver teu Corpo tão ferido,
Movem-me tuas afrontas e tua morte;
Move-me, enfim, teu amor e de tal maneira
Que, ainda que não houvesse Céu, te amaria,
E, ainda que não houvesse inferno, te temeria.
Nada tens que dar-me porque te quero;
Porque, se não esperasse o que espero,
Te queria o mesmo que te quero.


Resumo do ato de Contrição que usava o Ven. Marcos de Aviano, religioso capuchinho, morto em odor de santidade:

Eu, ruim e indigna criatura, me lanço a vossos pés, Deus meu, e, com o coração contrito e aflito, reconheço e confesso diante de Vós, Redentor de minha alma, que, desde o instante em que nasci até agora, tenho cometido inumeráveis negligências e pecados. Tenho-Vos ofendido, Deus meu! Pequei, Senhor! Porém, detesto os meus pecados e me arrependo do íntimo do coração. Por isso, prometo solenemente não mais pecar. Porém, se Vós, em vossa altíssima sabedoria, preveis que posso novamente ofender-Vos e cair outra vez no vosso desagrado, de todo o coração Vos peço que me leveis agora desta vida, em vossa graça. Oxalá a minha dor fosse tão grande que o propósito de não mais Vos ofender permanecesse sempre imutável! Porque Vos devo infinito agradecimento pela vossa divina bondade e porque mereceis que Vos ame sobre todas as coisas, arrependo-me de meus pecados, não tanto para livrar-me dos tormentos eternos que por eles mereci, nem para gozar das delicias do Céu, que tão inconsideradamente desprezei, como porque vos desagradam a Vós, Deus meu, que, por vossa bondade e infinitas perfeições, sois digno de infinito amor. Oxalá todas as criaturas vos mostrem sem interrupção, amor, reverência e agradecimento. Amém.


Ato de contrição usual no Brasil:

Senhor meu Jesus Cristo, Deus e homem verdadeiro, Criador e Redentor meu, por serdes Vós quem sois, sumamente bom e digno de ser amado, e porque Vos amo e estimo sobre todas as coisas: pesa-me, Senhor, de todo o meu coração, de Vos ter ofendido; pesa-me, também, por ter perdido o Céu e merecido o inferno; e proponho firmemente, ajudado com os auxílios de vossa divina graça, emendar-me e nunca mais Vos tornar a ofender. Espero alcançar o perdão de minhas culpas pela vossa infinita misericórdia. Amém.