terça-feira, 28 de março de 2017

O SONHO DAS CONSCIÊNCIAS - ALMAS ACORRENTADAS



Em sonho, apareceu a Dom Bosco encontrar-se na estrada que dos Becchi conduzia a um campo de sua propriedade, perto de Capriglio.
No caminho encontrou um desconhecido que o acompanhou, sem todavia revelar seu nome. Passando ao lado de figueiras e depois perto de vinhedos, o desconhecido convidou instantemente Dom Bosco a provar de algum fruto, mas este se recusou.
Chegados finalmente ao campo para onde Dom Bosco se dirigia, o indivíduo que o acompanhava dirigiu-lhe uma estranha pergunta:
_ quer ver seus meninos tais quais são no momento presente? Como serão no futuro? Quer contá-los?
Oh, sim!
_ venha, então.

LENTE MISTERIOSA

"Então- Dom Bosco- tirou , não sei de onde, uma grande máquina, que eu não saberia descrever,  e a fincou no chão. Dentro  dela, havia  uma roda, grande também.
- que   significa essa roda?- perguntei.
Respondeu:

A eternidade nas mãos de Deus!- e, segurando a manivela e dê uma volta.
Fiz o  que me mandou; acrescentou:
Olhe agora lá dentro.
Observei  a máquina e vi que havia nela uma lente enorme, de aproximadamente metro e meio de diâmetro. Encontrava-se no meio da máquina, fixa na roda. Olhei logo  através da lente. Que espetáculo! Vi todos os jovens do  oratório.
"como é isto possível  ?" dizia comigo mesmo. "até  hoje, não via ninguém por estas bandas, e  agora  estou  vendo todos os meus filhos! Mas eles não  estão em Turim?"
Olhei por cima  e aos lados da máquina, porém, a não ser pela lente, não via ninguém. Levantei o rosto para mostrar minha admiração àquele amigo, mas, depois de alguns instantes, ele me ordenou dar uma outra volta na manivela: via então que se afetara uma estranha e singular separação entre os jovens. Os bons estavam separados dos maus. Os primeiros estavam radiosos de alegria . o segundos, que felizmente  não eram muitos, inspiravam compaixão. Reconheci-os todos, mas como eram diferentes do que deles pensavam deles os companheiros !...
Uns tinham a língua furada; outros, os olhos revirados de modo a causar dó; outros sofriam de dores de cabeças por causa de úlceras repugnantes; outros tinham coração roído de vermes...mas olhava para eles, mas crescia minha aflição. Repetia:
Mas será possível que estes sejam os meus filhos? Não compreendendo o que possam significar essas estranhas doenças .
A estas palavras, aquele que me tinha conduzido à roda me disse:
escute : a  língua significa as más conversas; os olhos vesgos são aqueles que interpretam e apreciam totalmente as graças de Deus, preferindo a terra ao  céu; a cabeça doente é o descuido dos seus conselhos,  a satisfação dos  próprios caprichos; os vermes são as paixões desregradas que roem o coração ; há também os surdos que não querem ouvir as palavras , para não Ter que pô-las em prática.

JOVENS ACORRENTADOS

Fez-me depois um sinal e eu, dando uma terceira volta na roda, apliquei a vista na lente do aparelho. Havia quatro jovens presos com fortes correntes. Observei-os atentamente e reconheci - os   todos. Pedi explicação ao desconhecido, que me disse:
é fácil compreender: são aqueles que não ouvem seus conselhos e não mudam de vida; estão em perigo de perder-se.
Mandou-me dar outra volta. Obedeci  e pus-me  novamente a observar. Via-se outros sete jovens, reservados , com ar desconfiado, trazendo na boca um  cadeado fechava os lábios.
Três deles tapavam as orelhas com  a mão admirado e entristecido, perguntei o motivo do cadeado  que fechava os lábios daqueles tais. Ele me respondeu:
Então não entende? Estes são os que calam.
Mas calam o quê?
Compreendi então o que significava: calam na confissão; mesmo se interrogados pelo confessor não respondem ou respondem com evasivas.
O amigo continuo:Está vendo aqueles três que , além do cadeado na boca, tapam com as mãos os ouvidos? Como é deplorável sua condição ? são os que não somente calam na confissão, mas também não querem de nenhum modo ouvir os conselhos, as ordens do confessor. São os que ouviram suas palavras , mas não a escutaram, não lhe deram importância poderiam abaixar as mãos , mas não o querem fazer. Os outros quatros escutaram suas exortações e suas recomendações , mas não souberam aproveitar-se delas.
Que devem fazer para se verem livres daquele cadeado?
Ejiciatur superbia e cordibus eorum.( expulse-se de seus corações a soberba )
Hei de avisar a todos eles. Mas para aqueles que tapam os ouvidos com a mão há pouca esperança.

O APERTO FATAL

O personagem me fez dar mas uma volta na roda. Olhei e vi mas três jovens numa situação desesperadora. Cada um deles tinha um pavoroso macaco sobre os ombros. Observei atentamente tinham chifres. Simbolizam os jovem que mesmo dos exercícios ainda não são amigos de nosso senhor. O pecado e as paixões os escravizam.
Com o coração opresso por uma indizível comoção , com lagrimas nos olhos, voltei - me para o amigo e lhe disse:
como é possível ? estão em semelhante estado esses pobres jovens com os quais despendi tantas palavras, cerquei de cuidados, tanto na confissão como fora dela?
Perguntei o que eles deviam fazer para sacudir dos ombros aquele monstro horroroso.
Disse-me ele:
Labor, sudor, fervor.
Compreendi materialmente as palavras- respondi- mas é preciso que me dê a explicação
Trabalho na assiduidade das obras : suor na penitência; fervor nas orações fervorosas e perseverante.
Entretanto eu olhava e me afligia pensando: " como é isso? Será possível?! Mesmo depois dos exercícios espirituais?!... aqueles ali...depois de tudo o que fiz por eles, depois de tanto trabalho...depois  de Tantos conselhos ...e tantas promessas !...Ter avisados tantas vezes...não  esperava mesmo esta decepção”. Não conseguia tranqüilizar-me.

CEM POR UM

consola-se , porém- replicou aquele homem , ao ver o meu abatimento; fez-me dar outra volta na roda e acrescentou:
veja como Deus é generoso! Olha quantas almas lhe quer entregar! Está vendo aquela multidão de jovens?
Voltei a olhar pela lente e vi uma multidão que jamais conhecera na minha vida.
sim estou vendo- respondi - mas não os conheço.
Pois bem aqueles são os que nosso senhor lhe vai dar, em compensação pelos que não correspondem aos seus cuidados. Fiquei sabendo que para cada um destes últimos ele vai lhe dar  cem.
Ah! Pobre de mim! - exclamei- a casa já está cheia. Onde porei estes novos jovens?
Não se aflija aquele que lhes envia sabe muito bem onde os irá  colocar. Ele mesmo encontrará os lugares.
Se é assim , estou contentíssimo - respondi- consolado.

Observando ainda por muito tempo e cheio de complacência todos aqueles jovens , retive a fisionomia de muitos. Saberia reconhecê-los, se por acaso  os encontrasse ."

SONHOS DE DOM BOSCO

Fonte:

segunda-feira, 27 de março de 2017

QUANDO É QUE SOU DEVOTO DE NOSSA SENHORA?


É, sem dúvida, imensa a felicidade daqueles que são verdadeiros devotos da Mãe de Deus. Pois viverão
sempre felizes. Receberão todas as graças e bênçãos celestiais. E depois da morte terão o lindo Céu como recompensa.
Vejamos o que faz o devoto de Maria.
1) Antes de tudo ele procura conhecer bem a vida e as virtudes de sua Mãe. Há de ler livros que falam do poder, da grandeza e da bondade dela.  Não é possível que haja quem não conheça de perto e a fundo o extraordinário prodígio que é a Mãe de Jesus.
2) O devoto da Virgem Imaculada recorre muitas vezes a ela. Conversa familiarmente com sua Mãe como o bom filho faz com sua mãe terrena. Confia a ela suas mágoas, seus aborrecimentos, suas dúvidas e receios, na certeza sempre de que ela se interessa por ele e o ajude. Nossa Senhora gosta  de que confiemos cegamente nela e que lhe peçamos muitas graças.
3) O devoto de Maria gosta  de visitá-la nas igrejas e Santuários. Aprecia suas imagens. Faz romarias aos lugares onde atende com mais facilidade e às vezes maravilhosamente.
4) Aquele que ama a Maria, conhece as principais festas marianas, e se prepara bem para elas com orações especiais, mortificações e novenas.
5) O devoto da Virgem traz com devoção ao menos uma medalha com sua efíge; inscreve-se em confrarias marianas. Procura receber o escapulário de Nossa Senhora do Carmo e traze-lo com todo fervor.
6) O devoto da Imaculada agradece não ter sido abandonado, apesar de muitas ingratidões. Agradece os numerosos benefícios obtidos por ela. (Todas as graças, que temos recebido, passaram pelas mãos maternais de Maria).
7) Gostará de rezar o terço, oração predileta da Rainha do Santo Rosário. Cantará com prazer cânticos marianos e apreciará tudo o que se refere à Mãe Celestial.
8) Quem ama, de fato, a Maria entregar-se-á totalmente a ela com uma consagração irrevogável. Fará tudo para agradar-lhe. Alegrar-se-á por sabe-la tão grande, tão poderosa, tão bela e tão feliz. Dirá muitas vezes: “Maria, sou vosso e vosso quero ser sempre!”
9) O devoto de Maria procurará evitar tudo o que a possa ofender e o que possa ofender seu filho Jesus.
10) Por fim, e isto é o essencial, o devoto da Virgem procurará imita-la. Procurará copiar suas virtudes; ser semelhante a ela à medida de suas forças.
Quanto mais agradáveis formos a Maria, tanto mais alegraremos o coração de Nosso Senhor.
Considere-se o verdadeiro devoto da Mãe de Deus muito feliz, depois terá todos os auxílios necessários e abundantes neste mundo e a glória celestial no outro.
Como Maria Santíssima é boa! – Frei Cancio Berri C. F. M

sábado, 25 de março de 2017

O MUNDO INTEIRO ESPERA A RESPOSTA DE MARIA




Ouviste, ó Virgem, a voz do Anjo: Conceberás e darás à luz um filho. Ouviste-o dizer que não será por obra de varão, mas por obra do Espírito Santo. O Anjo aguarda a resposta: é tempo de ele voltar para Deus que o enviou. Também nós, miseravelmente oprimidos por uma sentença de condenação, também nós, Senhora, esperamos a tua palavra de misericórdia.

Em tuas mãos está o preço da nossa salvação. Se consentes, seremos imediatamente libertados. Todos fomos criados pelo Verbo eterno de Deus, mas agora vemo-nos condenados à morte: a tua breve resposta pode renovar-nos e restituir-nos à vida. 


Isto te suplica, ó piedosa Virgem, o pobre Adão, desterrado do paraíso com toda a sua mísera posteridade; isto te suplicam Abraão e David. Imploram-te todos os santos Patriarcas, teus antepassados, também eles retidos na região das sombras da morte. Todo o mundo, prostrado a teus pés, espera a tua resposta: da tua palavra depende a consolação dos infelizes, a redenção dos cativos, a liberdade dos condenados, a salvação de todos os filhos de Adão, de toda a tua linhagem.

Dá, depressa, ó Virgem, a tua resposta. Responde sem demora ao Anjo, ou, para melhor dizer, ao Senhor por meio do Anjo. Pronuncia uma palavra e recebe a Palavra. Profere a tua palavra humana e concebe a divina. Diz uma palavra transitória e acolhe a Palavra eterna.

Porque demoras? Porque receias? Crê, consente e recebe. Encha-se de coragem a tua humildade e de confiança a tua modéstia. Não convém de modo algum, neste momento, que a tua simplicidade virginal esqueça a prudência. Virgem prudente, não temas neste caso a presunção, porque, embora seja louvável aliar a modéstia ao silêncio, mais necessário é, agora aliar a piedade à palavra.

Abre, ó Virgem santa, o coração à fé, os lábios ao consentimento, as entranhas ao Criador. Eis que o desejado de todas as nações está à tua porta e chama. Se te demoras e Ele passa adiante, terás então de recomeçar dolorosamente a procurar o amado da tua alma. Levanta-te, corre, abre. Levanta-te pela fé, corre pela devoção, abre pelo consentimento.

«Eis a serva do Senhor, disse a Virgem, faça-se em mim segundo a tua palavra».

São Bernardoabade e doutor da Igreja, séc. XII.
(Das Homilias em louvor da Virgem Mãe, Hom. 4,8-9: Opera omnia, Edit. Cisterc. 4 [1966], 53-54).

Fonte:

Sim! Fiat!


 A mais bela palavra que disse Nossa Senhora foi o "Fiat", o sim da anunciação. E, dessa palavra, nos veio a redenção, com Jesus e Jesus crucificado. Ah como é poderoso o sim! Como ele opera maravilhas! O anjo manifesta a vontade do altíssimo e Nossa Senhora, sem hesitar, responde: - Eis a Escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a vossa palavra. E toda vida de Maria foi um sim, um "fiat", um ato de abandono perfeito, total a vontade do Pai Celeste. Anuncia-lhe Simeão a espada da dor responde, humilde: -"Fiat", "Sim". Vem o pretório, a cruz, o calvário.,"sim" sempre "sim". Depois a dolorosa saudade, a paz, a acensão, as amarguras do exílio... E Nossa Senhora sempre diz "fiat", "fiat", sempre sim  oh meu Deus! Não há mais perfeito modelo de abandono. Se o abandono é a expressão mais alta do amor, é o auge da perfeição possível nesse mundo. O que não era o abandono de Nossa Senhora sendo ela a rainha dos serafins ?

 Não há duvidas, a mais bela palavra de Nossa Senhora foi o "sim", o "fiat" da anunciação, sem esse fiat o que seria de nos ? Nossa perfeição também virá também do "sim", do "fiat", que soubermos dizer a Nosso Senhor a cada passo da nossa vida, e principalmente, no sofrimento.

Breviário da Confiança 


Fonte:
http://paramaiorgloriadedeus.blogspot.com.br

quarta-feira, 22 de março de 2017

Quem ama a Jesus Cristo ama a mansidão


"A caridade é benigna". O espírito de mansidão é próprio de Deus. "Meu espírito é mais doce do que o mel"1. A pessoa que ama a Deus, ama a todos os que são amados por Deus, isto é, todos os homens. Por isso procura sempre socorrer, consolar, contentar a todos na medida do possível. Eis o que diz São Francisco de Sales, mestre e modelo da mansidão: "A humilde mansidão é a virtude das virtudes que Deus tanto nos recomendou. É necessário praticá-la sempre e em toda parte". Dá-nos ainda a seguinte regra: "Quando vedes alguma coisa que se pode fazer com amor, fazei-o; o que não se pode fazer sem discussões, deixai-o”2. Isso se refere ao que podemos deixar sem ofender a Deus, porque, quando existe ofensa a Deus, esta deve ser impedida sempre e depressa por aquele que é obrigado a impedi-la.

A mansidão deve ser praticada especialmente com os pobres, os quais normalmente, por causa da sua pobreza, são tratados asperamente pelos homens. Deve-se ainda usar da mansidão particularmente com os doentes que se encontram aflitos e, as mais das vezes, recebem pouco cuidado dos outros. Devemos exercer a mansidão principalmente com os inimigos. É preciso “vencer o mal com o bem"3, isto é, o ódio com o amor, a perseguição com a mansidão. Assim fizeram os santos e por esse meio conseguiram o afeto de seus maiores inimigos. 

Diz São Francisco de Sales: "Não há nada que tanto edifique o próximo como a caridosa benignidade no trato"4. Ele tinha ordinariamente o sorriso nos lábios. “Sua aparência, suas palavras, suas maneiras respiravam mansidão”5. São Vicente de Paulo afirmava jamais ter conhecido um homem mais manso, parecendo-lhe ver a imagem viva da bondade de Jesus Cristo. Mesmo quando sua consciência o obrigava a negar alguma coisa, o santo mostrava tanta benevolência com as pessoas, que elas iam embora contentes, embora não tivessem obtido o que desejavam6. Era manso para com todos, com os superiores e com seus iguais, com seus inferiores, com as pessoas de casa e de fora7. Era bem diferente dos que, segundo sua expressão, parecem anjos na rua e demônios em casa8. No trato com seus empregados, não se queixava nunca de suas faltas; advertia-os apenas e sempre com bondade9. Coisa muito louvável em todos os superiores!

O superior deve usar de toda mansidão com os seus súditos. Ao lhes impor alguma coisa, deve antes pedir que mandar. Dizia São Vicente de Paulo “Para os superiores, não há melhor meio de se fazer obedecer do que a mansidão"10. "Experimentei todos os meios de governar - dizia Santa Joana de Chantal - e não encontrei nenhum melhor do que o modo bondoso e paciente"11

A bondade e a mansidão

O superior deve mostrar-se benigno mesmo nas repreensões que tem a fazer. Uma coisa é repreender com energia e outra repreender com aspereza. É preciso, às vezes, repreender com energia, quando a falta é grave, principalmente em caso de repetição da falta e depois de a pessoa ter sido avisada. Mas evitemos repreender com aspereza e com raiva; quem repreende com raiva faz mais mal do que bem. Esse é o zelo errado que São Tiago reprova. Há quem se glorie de dominar assim sua família ou comunidade, e pensa que é assim que se deve governar. São Tiago não pensa assim: "Se tendes um zelo amargo, não vos glorieis”12.

Se em algum caso raro houvesse necessidade de dizer uma palavra áspera para que alguém percebesse a gravidade de seu erro, é preciso temperar a dureza, terminando com alguma palavra mais mansa. É preciso curar as feridas, a exemplo do bom samaritano, com vinho e óleo. São Francisco de Sales dizia: “Assim como o óleo fica boiando quando despejado num copo de água, assim em todos nossos atos deve ficar por cima a bondade"13. Se a pessoa a ser repreendida está alterada, convém deixar a repreensão para outra hora e esperar que passe a raiva, caso contrário mais a irritaríamos. "Quando uma casa pega fogo não se deve jogar mais lenha na fogueira"14.

"Não sabeis de que espíritos sois". Foi esta a resposta que Jesus deu a Seus discípulos Tiago e João, quando eles queriam que fossem castigados os samaritanos, que os tinham expulsado da sua cidade: 

- Que espírito é esse? Não é o Meu! O Meu espírito é de bondade e mansidão; "não vim para perder, mas para salvar as pessoas"15 e estais querendo que Eu as perca? Calai-vos e não Me façais semelhantes pedidos, porque não é esse o Meu espírito!

De fato, com que mansidão tratou Jesus a mulher adúltera: 

- "Mulher, ninguém te condenou? Nem Eu te condenarei. Vai e não peques mais"16.

Contentou-Se apenas em admoestá-la a não mais pecar e a mandou em paz. Com quanta bondade procurou converter e converteu a samaritana. Começou pedindo-lhe água. Depois lhe disse: 

- "Se soubesses quem é que te pede de beber!" 

Em seguida revelou-lhe que era o Messias esperado. 

Com quanta bondade procurou converter o traidor Judas. Deixou que ele comesse com Ele no mesmo prato. Lavou-lhe os pés e o admoestou no momento da traição: 

- "Judas, é com um beijo que Me trais? Com um beijo trais o Filho do Homem?" 

Como é que mais tarde converteu Pedro, depois de ter sido renegado por ele? "O Senhor voltou-Se e olhou para Pedro”17. Ao sair da casa do pontífice, sem censurar o seu pecado, lançou sobre ele um olhar de ternura e o converteu. E converteu de tal forma que Pedro durante toda a vida não deixou de chorar a grave ofensa que fizera ao seu Mestre. 

A força da mansidão

É certo, ganha-se mais sendo manso do que severo. Dizia São Francisco de Sales que não há nada mais amargo que a noz; mas quando bem preparada, torna-se doce e agradável. O mesmo se dá com as repreensões; embora sejam em si desagradáveis, contudo quando feitas com amor e bondade, são bem aceitas e produzem maior proveito18

São Vicente de Paulo dizia que, no governo de seu instituto, fizera apenas três repreensões severas, acreditando ter boas razões para agir assim. Mas depois sempre se arrependeu porque nenhuma surtira efeito, ao passo que as correções feitas com mansidão sempre tiveram bom resultado19

São Francisco de Sales, por sua mansidão, alcançava dos outros tudo o que desejava. Assim conseguiu levar para Deus os pecadores mais endurecidos20. A mesma coisa fazia São Vicente de Paulo que ensinava a seus missionários esta regra: "A afabilidade, o amor e a humildade têm uma força maravilhosa para ganhar os corações dos homens, e levá-los a abraçar as coisas mais desagradáveis à natureza humana"21. Uma vez mandou um grande pecador a um de seus padres para que o convertesse. Mas o missionário, vendo inúteis todos seus esforços, pediu ao santo que lhe dissesse alguma coisa. Ele o fez e o pecador se converteu. Este declarou depois que a singular bondade e extrema caridade do santo lhe ganharam o coração. Por isso o santo não admitia que seus missionários tratassem os seus penitentes com dureza, e lhes dizia que o espírito infernal se serve do rigor de alguns para causar maior dano às almas22.

É preciso praticar a benignidade com todos, em todas as circunstâncias e em todo o tempo. Adverte São Bernardo que alguns são mansos enquanto as coisas correm de acordo com sua vontade. Mas quando atingidos por alguma contrariedade ou dificuldade, logo se inflamam, e começam a fumegar como um vulcão23. Pode-se chamá-los muito bem de carvões acesos escondidos debaixo de cinzas. Quem quer ser santo, deve ser nesta vida como o lírio entre espinhos. Embora nasça entre eles, não deixa de ser lírio, isto é, sempre igualmente suave e benigno! Quem ama a Deus conserva sempre a paz no coração e a deixa transparecer no rosto, apresentando-se sempre o mesmo, tanto nas dificuldades como na prosperidade: “As várias solicitações das criaturas não o perturbam na incessante luta da vida. Seu coração é como um santuário onde vive sempre em paz, unido a Deus"24

Ser manso...

Conhecemos o espírito de uma pessoa nas horas difíceis. São Francisco de Sales amava com ternura a Ordem da Visitação que lhe custara tantos trabalhos. Muitas vezes, por causa das perseguições que sofria, viu-a em perigo. Conservou, porém, sempre a mesma paz, contente até mesmo em vê-la destruída, se essa fosse a vontade de Deus. Foi então que ele disse estas palavras: "De algum tempo para cá, as numerosas oposições e contradições que me têm acontecido me dão uma paz incomparável e muito suave. São sinais da união próxima de minha alma com Deus, e sinceramente, essa é a única ambição de meu coração"25

Quando nos acontece ter que responder a quem nos maltrata, tenhamos cuidado em responder sempre com mansidão. "Uma resposta branda aplaca o furor"26. Uma resposta suave basta para apagar todo o fogo da raiva. Se nos sentimos aborrecidos, é melhor calar, porque nesse momento nos parece justo dizer o que nos vem na cabeça, mas depois, acalmada a paixão, veremos que todas as palavras que proferimos foram erradas. 

Quando nos acontece cometer alguma falta, é preciso que usemos de mansidão para conosco mesmos; irritar-se contra nós mesmos, após uma falta, não é humildade, mas refinada soberba, como se nós não fôssemos fracas e miseráveis criaturas. Dizia Santa Teresa: “A humildade de que inquieta nunca vem de Deus, mas do demônio”27.

Zangar-se contra nós mesmos, após uma falta, é uma falta maior do que a cometida, e trará consigo muitas outras, pois nos fará deixar as práticas de piedade, a oração, a comunhão; e, se as fazemos, serão mal feitas. Dizia São Luís Gonzaga que não se enxerga na água turva e nela pesca o demônio28. Uma alma perturbada pouco conhece a Deus e aquilo que deve fazer. É preciso, portanto, quando caímos em alguma falta, voltarmo-nos para Deus com humildade e confiança e, pedindo-Lhe perdão, dizer, como Santa Catarina de Gênova: 

- Senhor, estas são as ervas do meu jardim!29. Amo-Vos de todo o coração e me arrependo de Vos ter dado esse desgosto. Não quero mais fazê-lo, dai-me o Vosso auxílio.  

ORAÇÃO


 Felizes correntes, que ligais o homem a Deus, atai-me também e uni-me a Deus de maneira que não possa mais me separar de Seu amor, Meu Jesus, eu Vos amo; sim, eu Vos amo, tesouro e vida de minha alma e a Vós me prendo e entrego todo meu ser, Não quero deixar, meu amado Senhor, de Vos amar. Para apagar os meus pecados, consentistes em ser preso como um criminoso e assim ser conduzido à morte pelas ruas de Jerusalém; quisestes ser pregado na cruz e de lá descer só depois de nela deixar a vida. Pelos méritos de tantos sofrimentos, não permitais que eu me separe de Vós. 

Arrependo-me de todo coração de ter me afastado de Vós; com Vossa graça estou resolvido a antes morrer do que Vos tornar a ofender. 

Meu Jesus, em Vós me abandono, amo-Vos de todo o coração, amo-Vos mais do que a mim mesmo. Na vida passada eu Vos ofendi, mas agora eu me arrependo e quisera morrer de arrependimento. Eu Vos peço, atraí-me todo a Vós; renuncio a todas as consolações sensíveis, quero só a Vós e nada mais. Farei que Vos ame, farei de mim o que mais Vos agradar. 

Maria, minha esperança, uni-me a Jesus e fazei que eu passe minha vida unido a Ele, e unido com Ele morra, para assim chegar um dia no céu, onde já não existirá o medo de me ver separado do Seu santo amor!
Santo Afonso Maria de Ligório. 
A Prática do Amor a Jesus Cristo, 
Capítulo VI.

Notas:

  1. Eclo 24,27
  2. S. Francisco de Sales, Lettre 1539, Julho-outubro 1619, à Madame de Villesavin, Oeuvres, XVIII, 417; Lettre 1254, 10 de novembro 1616, à Madame Grillet de Monthoux. Oeuvres, XVII, 305, 306.
  3. Rm 12,21
  4. S. Francisco de Sales, Lettre 1223, à Mère de Bréchard. 22 de julho 1616, Oeuvres, XVII, 260
  5. Sta. Joana de Chantal, Déposition pour la beátification et canonisation de S. François, a. 32. (Procès d’Annecy, 1627). Vie et Oeuvres, XVII, 260
  6. Abelly, Vie, 1.3, c.12
  7. Sta. Joana de Chantal, Déposition pour la beátification et canonisation de S. François, a. 27. Vie et Oeuvres de la Sainte, III, 130
  8. S. Francisco de Sales, Introduction à la vie dévote, p.3, c. 8 
  9. Camus (Ed. Abrégée Collet), p.5, c.10
  10. S. Vicente de Paulo, cfr. Abelly, Vie, 1.3, c. 24, s. 1
  11. Mére de Chaugy, Mémoires sur la vie et lês vertus de S. Jeanne de Chantal, p. 3, c. 19. Vie et Oeuvres de la Saint, 1, p. 466
  12. Tg 3,14
  13. S. Francisco de Sales, Introduction à la vie devote, partie 3, c.8
  14. Surio, De probatis sanctorum historiis, 10 outubro, Vita S. Joannis (prior do monastério de Bridlington) 
  15. Lc 9, 55-56 
  16. Jo 8, 10-11 
  17. Lc 22,48-61
  18. Camus, Esprit de S. François de Sales (Ed. Abrégée Collet), partie 1, c.3. Lettre 2090 (Fragments), c, à la Mère de Chantal, 1615-1617. Oeuvres, XXI, 176
  19. Abelly, Vie, livre 3, c.12
  20. Camus, Esprit de S. François de Sales: partie 3, c. 11 e 21, partie 10, c.2, 4,5; partie 14, c.13
  21. Abelly, Vie, livre 3, c.12
  22. Acami, dell’Oratorio di Roma, Vita, Roma, 1677, I. 1, c.11
  23. S. Bernardo, De adventu Domini, sermo 4, nº 5. ML 183-49
  24. Petrucci Matteo, bispo de Jesi (1681), cardeal (1686). – Poesie sacre, morali e spirituali (Iesi, 1685), p.143
  25. S. Francisco de Sales, Oeuvres, XIV, 177, 178
  26. Pr 15,1
  27. Sta. Teresa, Livro de la Vida, c.30
  28. S. Luís Gonzaga: Vita (Cepari), 2ª parte, c. 7; c.8
  29. Sta. Catarina de Gênova, Vita (Marabotto e Vernazza, c.16)

Fonte:

segunda-feira, 20 de março de 2017

Deus não nos chamou para a impureza, mas sim para a santidade

É necessário refletir sobre essas coisas, e ver as pessoas como Deus as vê, e não como o demônio quer que as vejamos

Santo Tomás expulsa, da torre em que estava preso, a moça de má vida

Em nome do Pai e do Filho + e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…
Instituto do Bom Pastor, IBP-SP – 12/03/2017 – Nesta Quaresma nos parece proveitoso algumas palavras sobre os pecados capitais, suas características, os frutos ruins que produzem em nós, e o modo de combatê-los. E, pelo tema da Epístola e do Evangelho de hoje, a Providência nos dá a ocasião de iniciarmos pela luxúria, fazendo-nos vê-la por outros ângulos.
Santo Tomás enumera oito consequências da impureza: 1. Cegueira da inteligência: que faz com que a pessoa não se dê conta da gravidade do que faz. Não reflete que prejudica seriamente a sociedade, lesando a geração e a educação dos filhos, a amizade entre os esposos, o modo como vê o casamento e como o levará adiante, nem o modo como vê e considera as pessoas a sua volta; 2.Precipitação: A pessoa não recebe com docilidade os conselhos que lhe dão; 3. Inconsideração das punições que Deus dá aos impuros; 4. Inconstância: Como a pessoa está muito apegada ao prazer, desiste fácil de qualquer propósito ou atividade mais séria, porque exigem sacrifício e são desagradáveis em muitos pontos; 5. Amor sem ordem e medida aos prazeres sensuais, fazendo deles o eixo da vida; 6. Apego a esta vida, porque quer muito se beneficiar do que este mundo dá (transparecendo em medo de morrer, em pânico diante de qualquer doença, na preocupação enorme por estar em boa saúde, em jamais fazer qualquer coisa que possa comprometer um pouco que seja a saúde, etc.); 7. Horror e desespero diante da outra vida, onde não haverá mais os prazeres que busca, e onde será punida por ter desprezado a Deus nesta vida, desprezando sua Lei; 8. Ódio de Deus, vendo que não quer se corrigir e sabendo, ao mesmo tempo, que será punida por Deus, o que faz com que veja a Deus, finalmente, como um inimigo.
Cegueira, precipitação, inconsideração e inconstância,
Ama o corpo e o tempo presente, foge do tempo futuro e de Deus.
Os sacerdotes têm o dever de ensinar os remédios que devem ser usados contra a luxúria. Como já falamos em outras ocasiões, estas questões devem ser expostas com cautela, sobretudo em público, para não ofender o pudor. Ao mesmo tempo, a instrução não deve ser tão pouca que acabe sendo insuficiente em uma questão que, infelizmente, diz Santo Afonso, é tão frequente nos confessionários e que leva a maioria das almas para o inferno.
1 — O primeiro remédio é fugir do ócio. Primeiramente, porque o cansaço físico e o hábito de trabalhar duro, por si só, já diminuem as quedas e o apreço pelo prazer. Mas se só isso bastasse, não haveria pecados contra a pureza entre os trabalhadores braçais, da construção civil, e os militares. Com relação à castidade, a principal eficácia de se manter ocupado está em que isso ocupa a imaginação. A imaginação nunca está quieta. Ela sempre procura alguma coisa para se ocupar. Se a deixamos vazia, ela procurará algo para passar o tempo de acordo com a má inclinação que já tem. Como está má inclinada, bem rápido nos colocará em situação complicada.
2 — Todos os moralistas dizem que é necessário cortar com os romances, novelas, filmes. No concreto, todostêm cenas de namoros, beijos, e coisas piores, em abundância. O enredo é construído de um modo onde os personagens veem uns aos outros sob a ótica dos interesses baixos. As relações entre as personagens são regidas pelo sentimentalismo romântico e pela busca do outro como alguém pelo qual eu tenho interesse sensível. A psicologia dos personagens é defeituosa, concebida para funcionar sob a ótica do mundo, da impureza, e não da virtude. Isso dá, para quem lê e assiste essas coisas, um conceito do que é amar, e gostar de alguém, completamente carnal, nada católico, e isso é uma verdadeira catástrofe nas suas consequências reais: fuga do casamento, contracepção, aniquilação da noção de caridade, de espírito de sacrifício, coisas sem as quais é impossível existir sociedade humana e Igreja.
3 — Fugir da familiaridade com pessoas do outro sexo, mesmo se são pessoas devotas. Os rapazes, quando ficam andando com as moças com as moças e tendo familiaridades com elas, adquirem hábitos e modos de ser que são realmente desagradáveis: ou ficam efeminados, ou ficam com um modo de ser que mais parece com o de um libertino, e isso se percebe. Ou ficam com os dois defeitos ao mesmo tempo… As moças devem ter muito claro que o sentimentalismo precisa ser aniquilado. Sendo bem concreto, dessa vitória contra o sentimentalismo dependerá, muitas vezes, a sobrevivência delas. Quando um rapaz desonesto se dá conta de que uma moça é sentimental, ele se aproveita disso, alimenta isso. Depois as coisas acabam escorregando para faltas maiores, até o dia em que o rapaz vai embora. Consequência: a moça, depois de se ver enganada, concebe aversão do casamento; uma ideia de que os homens são todos desonestos; ela mesma fica com dificuldade de conseguir amar alguém de modo correto, porque a experiência passada cria nela um bloqueio para isso; fica uma pessoa irritada, de temperamento azedo, porque não consegue digerir o que passou; e tudo isso reflete em volta dela, e as pessoas à sua volta (amigos, familiares, marido e filhos, depois de casar, etc.) acabam sofrendo em muitas coisas por causa disso.
Quanto aos noivos, o conselho mais eficaz do mundo é: fujam de ficar sozinhos. O Pe. Luís Carlos Lodi, padre de muita experiência, em um de seu livros, lembra aos noivos de que eles jamais devem ficar sozinhos, nem devem andar de carro juntos, sem outra pessoa que os acompanhe.
4 — Oração frequente, porque nos dá conhecimento maior e mais claro das coisas de Deus, e maior amor por elas, tirando nosso interesse pelos prazeres deste mundo, como vemos no Evangelho de hoje, onde São Pedro, tendo maior conhecimento de Jesus Cristo pela sua transfiguração, concebeu tanto amor por Deus que não queria mais sair de lá.
5 — Confissão frequente, com o mesmo confessor (que conhecendo a alma pode ir adaptando os remédios e conselhos mais eficazes), antes e cair; comunhão frequente.
6 — Lembrar da morte e do juízo. Devoção por Nossa Senhora, que é Mãe do belo amor. Guardar os sentidos, sobretudo os olhos. Mortificação.
7 — Ver os outros de modo elevado e sobrenatural. Muita coisa na nossa vida depende de como as vemos. Uma das coisas que leva as pessoas a cometer pecados contra a pureza é o fato de que consideram os outros à sua volta de um modo muito baixo. Isso não pode ser assim. São Paulo via muito bem que o modo como vermos as pessoas é decisivo para guardar a castidade ou ir contra ela: “Que cada qual saiba tratar a própria esposa com santidade e respeito, sem se deixar levar pelas paixões, como os gentios, que não conhecem a Deus. Nessa matéria ninguém fira ou lese a seu irmão(…) Pois Deus não nos chamou para a impureza, mas sim para a santidade. Portanto, quem desprezar estas instruções não despreza um homem, mas Deus, que vos infundiu o seu Espírito Santo” (1Tess. 4, 4-8). Para São Paulo, guardar a castidade é algo muito ligado ao modo como vemos os outros. Queremos guardar a pureza? Então é necessário nos dar conta de que a outra pessoa é ou será uma mãe e esposa, ou um marido e um pai; de que ela tem uma alma que foi concebida por Deus desde toda a eternidade para se salvar; de que Deus a criou tendo por ela um amor infinito, e planos tão nobres que não somos capazes de conceber quais são, nem a profundidade deles; de que Cristo morreu por essa pessoa, e de que ela tem o sangue de Nosso Senhor sobre ela, de que ela participa, pela graça, da vida de Deus. É necessário refletir sobre essas coisas, e ver as pessoas como Deus as vê, e não como o demônio quer que as vejamos.
Podemos concluir com Santo Afonso: “Nesta questão, é necessário, tanto quanto possível, usar de muita firmeza. Em coisa tão fácil de cair, nenhuma cautela é demais. Muitas opiniões, sobre o que é permitido, são verdadeiras; mas na prática, por causa da fraqueza humana, não devem ser usadas. O confessor deve saber que algo, em princípio, pode não ser pecado grave, mas vendo que oferece perigo real ao fiel, não deve permitir que seja feito” (Homo apost., trat. IX).
Em nome do Pai e do Filho + e do Espírito Santo. Amém.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Grandeza de São José

Um orador famoso tecia um dia, no areópago, o elogio de Felipe o Macedônio. Depois de decantar as nobres origens, as riquezas, o poder, a coragem, as vitorias de seu herói; calou-se um instante como se nada mais tivesse a acrescentar. Mas depois subitamente gritou: "Tudo isto não é nada. Ele foi o pai de Alexandre. o conquistador do mundo: Eis ai a sua gloria imensa".

Eu também, se vos fizesse passar diante dos olhos uma a uma as virtude de São José, poderia no fim concluir: "Tudo isto não é nada; a sua gloria eterna é ter sido o pai custódio de Jesus, salvador do mundo, e ter sido o casto esposo da Virgem Maria, Mãe de Deus". Por isto ele está acima dos Santos. Estes são os seus títulos de nobreza: Consideremo-los um por um.

 a) Esposo de Maria- Se bem que José e Maria permanecessem virgens por toda a vida, vivendo juntos como viveriam os anjos, todavia contraíram um legitimo matrimonio; e assim assim São José foi verdadeiramente esposo de Maria. Ora, a esposa - como diz também São Paulo- é sujeira ao esposo: Maria, pois, foi sujeita a São José. Pensai, quanta honra!
 Esposo de Maria significa esposo da criatura maria que jamais houve no céu e na terra, da criatura que foi mãe de Deus.

 Esposo de Maria significa esposo da rainha dos anjos, dos arcanjos, dos patriarcas, dos profetas, dos apóstolos, dos mártires, da rainha sem macula da rainha da paz.

b) Pai de Jesus- José não foi, é verdade, o pai natural de Jesus, porque o filho o Filho de Deus se fez homem encarnando-se no seio puríssimo de Maria Virgem, por obra do Espirito Santo. Contudo, no evangelho muitas vezes ele é chamado com o nome de pai. Depois de descrever o mistério da apresentação no templo, depois de recordar as profecias de Simeão, o Evangelista acrescenta: "Seu pai e sua mãe estavam maravilhados".(Lc,. II, 33). e a própria Nossa Senhora, na alegria de reencontrar o Menino entre os doutores, lembra S. José  om o nome de pai:"Teu pai e eu chorando, muito te procuramos".

 Mas, se São José não cooperou na geração de Jesus, por que então foi chamado Pai de Jesus ? Por dois motivos: porque foi esposo de Maria, e porque teve toda a autoridade e responsabilidade de pai.

 O primeiro motivo é explicado por São Francisco de Sales, dizendo:"suponde que uma pomba, voando deixe cair do bico uma tâmara num jardim. O fruto caído do alto se enterra, e sob a ação da água e do sol germina, cresce e torna-se uma bela palmeira, Esta palmeira de quem será ? Evidentemente do dono do jardim, como dele é qualquer outra coisa que ali nasça. Ora, essa pomba figura o Espirito Santo, que deixou cair a tâmara divina- O Filho de Deus-  no Jardim fechado onde toda virtude é florida- o seio de Maria; mas, pertencendo ela, de pleno direito, ao seu castíssimo esposo, também Jesus - palmeira celeste- ao menos de algum modo pertence a José ".

 O segundo motivo é explicado por São João Damasceno, dizendo: "Não é apenas a fecundidade no gerar que dá a alguém o direito de se chamar pai, mas também a autoridade no governar, e a responsabilidade da vida". E foi São José que subtraiu Jesus a todos os perigos, que o criou em sua casa, que o fez crescer. Foi São José quem ensinou o oficio ao Filho de Deus, que mandou a ele como a um empregado. E quem sabe como ele tremeria todo no coração, e como os olhos lhe umedeciam, quando Jesus lhe dizia: "PAI".

c) Maior do que os Santos.- Se Deus destina uma pessoa a algum oficio sublime, reveste-a de todas as   para bem cumpri-lo. Assim, tendo ele escolhido Maria para ser sua Mãe, encheu-a de graça acima de todas as criaturas. Do mesmo modo, em proporção, tendo escolhido São José para a dignidade de seu pai putativo e de esposo da Virgem, cumulou-o de graças imensas, como a nenhum outro Santo.

 O Evangelho chama a José "homem justo", E são Jeronimo explica que essa palavra "justo" significa que ele possuía todas as virtudes. Enquanto os outros Santos se assinalaram particularmente um por uma virtude e outro por outra, São José foi perfeito igualmente em todas as virtudes, Por isto, a 31 de dezembro de 1926 na Basílica de São Pedro Pio XI, cantando solenemente as ladainhas dos santos, imediatamente após a invocação a Nossa Senhora acrescentou a invocação a São José: - Sancte Joseph, intercede pro nobis.

(Pensamentos sobre os Evangelhos e sobre as festas do Senhor e dos santos, Pe João Colombo)

Fonte:
http://paramaiorgloriadedeus.blogspot.com.br/